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À MÃO LIVRE: UMA HISTÓRIA DE ARTE, SUPERAÇÃO E FAMÍLIA NA MELHOR IDADE

Parece que foi ontem, mas já faz oito anos que o bazar de Natal de Dona Maria da Penha e Dona Luceia vem conquistando os fãs de artesanato que passam perto do Nº 218 da Dr. Siqueira, no centro de Magé. Dotadas de singular habilidade manual, essas irmãs e vizinhas, de 74 e 77 anos, comemoram mais uma temporada em que podem expor seus trabalhos feitos com outras amigas ao longo de um ano, e que vão encontrar utilidade (além, claro, de enfeitar e alegrar) à casa de muita gente.

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São panos de prato, vestidos, toalhas de banhos, jogos de cozinha, tapetes, capas de bujão de gás e de garrafões de água, bate-mãos, porta-calcinhas,…tudo feito com técnicas como as de bordado inglês, patchwork, passafita, termocolante, crochê. O dom parece mesmo ser de família. Tudo começou com Ester, uma das filhas de Maria, e professora de Educação Artística.

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— Ela dava aula de pintura e eu era uma das alunas. A gente se reunia lá nos fundos da  antiga Padaria Vitória. Depois viemos pra cá, ela parou de dar aula e nós continuamos por nossa conta. Aqui cada uma ensina a outra, e estamos sempre recebendo gente nova. Chegamos até a pensar em montar uma cooperativa, mas a ideia não foi adiante. Já produzimos 600 peças em um ano — conta Maria.

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Já Dona Ceia chegou um pouco depois (“eu vim depois que meu marido faleceu, pra distrair a cabeça”), mas pegou rapidinho o ritmo dos pincéis. Quando se viu estava novamente às voltas com sua máquina de costura, e também relembrando as aulas do tempo de criança: “até hoje eu lembro do elogio que ganhei da professora quando desenhei uma árvore” — conta ela, que também é mãe de uma professora de Educação Artística, Lucinda, e de Eliane, que embora formada nunca exerceu a profissão.

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Dona Maria também recorda: “sempre gostei, na nossa época na escola tinha um dia só pra artes, a gente aprendia ponto cruz, ponto cheio, ponto haste, tricô, crochê. Hoje em dia nas escolas não tem mais isso, ne?”.

Mas afinal, artesanato dá lucro?

— O pouquinho que a gente ganha, acaba sendo pra ajudar os outros.  A intenção aqui é manter a mente ocupada, não dar Mal de Alzheimer. Aqui a gente brinca, a gente lancha, tem hora que chora porque tem sempre uma que abre o coração, e aí a gente conversa e anima a pessoa. É uma relação de amizade, de irmãos. Melhor do que ficar sozinho em frente a TV vendo só o que não presta — ensina Maria, que fala com a propriedade de quem há apenas um mês passou por seis cirurgias no coração. Quem vê sua força nem acredita:

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As irmãs Ceia (de óculos) e Maria da Penha Almeida, no bazar da rua Dr. Siqueira Nº 218: produção e diversão na Melhor Idade

— Eu sabia que ia ficar um tempo sem poder mexer os braços, me recuperando, então deixei os paninhos todo prontos e deixei bastante comida no freezer pra ninguém ter que fazer nada. Até que a recuperação, graças a Deus, está sendo ótima. Não tive ansiedade pra voltar às atividades, está sendo tudo natural. E aconselho pra quem tem que fazer a cirurgia, fazer logo. O medo e a preocupação é que atrapalham a vida.

“Dá de dez a zero na Feira de Teresópolis”

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As peças de Maria, Ceia e companhia já foram parar no exterior. Quando a empresa Galvão Contreras estava instalada em Magé, bolivianos aos montes vieram trabalhar e trouxeram suas famílias. Depois que uma das donas de casa, em passeio pela cidade, descobriu o “corredor do artesanato”, espalhou a novidade pras demais, e o estoque foi praticamente todo (“elas falaram que na terra delas não tem nada parecido” – não esconde o orgulho Maria).

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De outra feita, uma moça passando pelo bazar ficou encantada. Se apresentou como moradora de Copacabana e proprietária de uma loja que fica dentro de um navio atracado na Praça XV. Trouxe 20 vestidos para as irmãs pintarem, dizendo que iria vendê-los para clientes internacionais, e prometendo trazer o dinheiro dentro de um mês quando viesse buscar as peças. Pois passou-se mais de um ano depois dos vestidos pintados e eis que volta a moça achando que iria levá-los fiados (“ela era mal informada sobre Direito” – diverte-se Maria).

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Nesta semana, dentre as muitas clientes, uma resumiu bem o diferencial do trabalho das meninas. Cláudia de Souza é o nome dela, moradora de Magé mesmo:

— Elas são detalhistas. E é isso que a gente valoriza num trabalho. São produtos de extrema qualidade. Você vê a dedicação com que elas fazem cada peça. Eu estive a poucos dias na Feira de Teresópolis, que é muito famosa, e posso dizer que lá não tem nada com essa riqueza de detalhes. Aqui dá de dez a zero. Sem contar o preço também que lá é um absurdo e aqui é muito bom.

O segredo para fazer bem feito, Dona Ceia revela: “qualquer pessoa pode, só tem que gostar. E nunca é tarde pra começar”.

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