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A TESTEMUNHA DO SOM – ZÉ GUTO VISITA MAGÉ, CONTA HISTÓRIA E DIVULGA NOVO ÁLBUM

Carioca de Vila Isabel, cria de Magé, morador de Armação dos Búzios. José Augusto Pereira da Silva, 53 anos, é assunto que não acaba. No último domingo, enquanto visitava seu filho Raone, comentou que acabara de gravar um novo álbum. Foi o suficiente para que a partir daí desenrolasse um papo descontraído e cheio de gestos, que só quem o conhece sabe. A conversa acabou virando essa entrevista. Só é difícil acreditar quando ele diz que se sente deprimido toda vez que vem a Magé, porque ao mesmo tempo em que fala isso, estampa o indelével sorriso na cara.

Autoditada, caçula em uma família de instrumentistas, chegou a fazer bailes com os irmãos no lendário grupo San Baby. Aqui, cita com saudade os amigos Chimbraw e Gilson, companheiros de estrada, que juntamente com ele marcaram as noites dos anos 70/80 dos barzinhos de Magé e região. ‘Eles foram profetas de Deus, pela musicalidade que havia no coração deles’. Senhoras e Senhores, o site O MANGUE tem o prazer de apresentar: Zé Guto!

O MANGUE – Esse já é o seu quarto trabalho gravado.

ZÉ GUTO – É, o primeiro foi com os Viajantes do Tempo, né. Tinha três músicas minhas. Eu até curti, mas não pude divulgar o CD, deixei aquilo de lado.

O MANGUE – Por quê?

ZÉ GUTO – Porque meu irmão cantou uma música xingando: ‘Vagabunda, ô piranha’ (risos). Como que vou divulgar isso? Eu falei como que você vai botar esse negócio aí, cara? Que porra é essa? (risos). Aí vinha outra música logo em seguida que falava: ‘santuário, onde que eu rezo pro meu amor’. (risos). Aí não dá. Até porque nessa época eu já estava estudando a bíblia, os irmãos iriam me expulsar da congregação.

O MANGUE – As Testemunhas de Jeová pegam muito no pé?

ZÉ GUTO – Não, eles sabem que é a profissão, nunca reclamaram. Todo mundo lá é consciente da verdade, você vai carregar seu próprio fardo. Eu não vou tocar coisa obscena nem glorificando ao diabo. Tanto que eu mudo algumas coisas. Por exemplo, aquela do Benjor eu faço assim: (pegando o violão) ‘esse samba que é misto de maracatu, samba de negro velho’. Porque falar ‘preto velho’ se associa a entidade de macumba. Nada contra quem gosta, mas eu não me sinto bem. A mesma coisa essa: ‘levei o meu samba pra minha mãe me orar, contra o mau olhado carrego meu deus jeová’. Ninguém presta atenção.

O MANGUE – Suas composições sempre foram pautadas pela temática da natureza.

ZÉ GUTO – Sim. Fui criado aqui nos monjolos, Santo Aleixo, cachoeira de Guapimirim, aquele vale ali de Parada Modelo. Eu morei um tempo na casa do meu primo Gilson, caçando, com um rio cortando o quintal. Gilson fazia flauta pra gente tocar. Ele não gostava de fazer nada em casa porque era o protegido da família porque tocava acordeon no bar do pai dele, já com sete anos. A sanfona cobria toda a cara dele. Depois, mais tarde, veio a AMA, com Radamés Marzullo, os encontros da revista Olho Nu, que falava da proteção à fauna e à flora, da destruição dos manguezais, etc. Tinha o Moreno, do PT, um ideologista cultural muito maravilhoso. Todo cinco de junho a gente fazia o movimento do Meio-Ambiente no morro do Bonfim, trouxemos o Xangai pra cantar uma vez. Vinham vários artistas de vários lugares, acampavam, era bonito. Magé ficava bonita, cheia de gente de fora, a praça ficava cheia de barraquinhas, artesanato. Eu fiz dois festivais da canção. Era outra época, né. A diferença é que a gente acreditava. Hoje acabaram com Magé. Mas tá geral, tão acabando com tudo. Isso é a praga. São as profecias se cumprindo.

O MANGUE –‘A Lua’ foi um CD solo. Como foi a produção?

ZÉ GUTO – Foi num estudiozinho em Piabetá, com o Adriano. Mas foi em tecnologia mid, todo em bateria sampler. Teve a participação do Sandro Vercele que fez uns solos na guitarra, e do Grapete que é um tecladista que tocou na Record. É um bom registro das minhas músicas. Quando eu preciso de cópias, ligo pro cara em Minas e ele me manda.

O MANGUE – Qual a diferença pra essa produção de agora? O álbum novo já tem título?

ZÉ GUTO – Ainda não escolhi o nome, estou chamando por enquanto de ‘Azul do Luar’, que é a primeira faixa. Agora a gente usa instrumentos mesmo, vários canais, tudo a vera, leva tem até direitos fonográficos. É uma produção do Rodrigo e da Kalu, um casal de professores da Villa-Lobos, gravado no estúdio deles em Búzios. Já tá tudo mixado, era pra ter ficado pronto em seis meses mas levamos dois anos. São treze faixas, tem quatro sambas, tem pop-rock, tem toada, tem um country, tem uma música do Jorge Reno, grande amigo de Magé… Bom, ainda falta o ‘disco de outro’, que é a matriz, e a arte final, que é a capa. Eu pretendo fazer o lançamento em maio ou junho, no Teatro Wagner Tiso, um espaço novo lá no Porto da Barra, em Búzios, lugar para cem pessoas. Já tem uma música tocando em uma rádio na Bahia, chamada ‘Sementes de Noel’. O Cléber, que também participa da produção, é baiano e levou pra lá. E eu agora tô indo pra Florianópolis, onde está me esperando minha amiga Krika Ohana, que é irmã da Cláudia Ohana, pra gente tocar algumas coisas em restaurantes por lá.

O MANGUE – Aliás, foi a Krika que praticamente te apresentou a Búzios, vocês chegaram a gravar um CD ao vivo na praia da Ferradurinha.

ZÉ GUTO – É, o ‘Bossa N’ Búzios’. Um cara levou o equipamento e gravou a gente tocando. Antes disso eu havia passado por Teresópolis, Porto Alegre, onde fiz uma temporada com o Sandro Vercele e de lá vim de carona num avião da FAB num voo cheio de caixões de defunto, depois fui pra Juiz de Fora, de lá pra Cabo Frio onde fiquei na casa de Bicho, um amigo de infância daqui de Magé. Sempre tocando. Até que conheci uma violonista em Búzios, a Cidinha, acabei indo pra lá, me entrosando com o pessoal da Associação de Músicos. E conheci depois a Krika. Ficamos um ano tocando na Ferradurinha passando o chapéu nos intervalos. Depois começou a aparecer, fizemos pousadas, fizemos o ‘Osso Perdido’, etc. Mas o começo lá foi bem difícil, eu só tinha uma guitarra dura pra tocar, uma Crafter. Nunca esqueço o primeiro dia, quando a gente começou na praia de João Fernandinho (risos).

O MANGUE – Conta.

ZÉ GUTO – (risos). Pintou cocô na minha vida, é dinheiro. Quando eu me cago, alguma coisa assim, já sei que vou ganhar dinheiro pra caramba. A gente armou o equipamento e me deu vontade de urinar, né. Só que não tinha banheiro na praia. O cara falou, ‘ah, você sobe uma escadinha, vira a esquerda, não sei o que’, tá beleza. Quando eu cheguei, era um mato. Nisso que eu tô mijando soltei um gás. Peidei (risos). Me caguei todo, cara. E na hora acendeu a luz vermelha: ‘plin, vai descer mais’. Pô, de chinelo, tô procurando ver o que eu fazia, corro pra um lado, corro pra outro, quando de repente pisei e atolei o pé na merda (risos). Era um campo minado (risos). O chinelo chegou ficar agarrado, pesado (risos). E a barriga doendo. Quando pisei com outro pé quase escorreguei em outra merda (risos). Puta merda, pisei na merda (risos). Quando olhei assim até meu braço já tava todo cagado (risos). Quando olho pro lado, um mutucão deste tamanho assim azulado cheio de mosca (risos). Só mutuca! Só mutuca! (risos). Eu caguei assim em pé (já chorando de tanto rir). Pra limpar foi umas folhas grossas cheio de lodo (risos). Quando desci dei logo um mergulho no mar. E a Krika: ‘ué, tomar banho pra tocar?’ (risos). Eu falei, ‘depois te conto’. Dali começamos a ganhar dinheiro, era trezentos, quatrocentos contos todo dia. Já cheguei a tocar por oito meses direto, todo final de semana. Mas também tem a época da seca.

O MANGUE – Quais as lembranças você tem de tocar em Magé?

ZÉ GUTO – Muitas, muitas amizades, muitas bandas. Era o rock’n’roll. ‘Papel Ofício’, ‘Bagagem’, ‘Fogo no Castelo, ‘Seres Vivos’, ‘Extrema Unção’, ‘Vírus da Noite’. A primeira foi ‘Fazer’, que era o nome de um pedal de efeito. Um dia fomos inaugurar o Palhoça, em frente ao Tênis Clube. Era ‘Instinto Natural’ – eu, Gilson e Chimbraw. Nisso, Valtinho e Adriano arrumaram um show no mesmo dia no Tênis, pra ferrar com a gente. A banda deles era a ‘Tubo de Ensaio’, já tinham deixado fita na Rádio Fluminense, compraram tudo novo, tudo de primeira. Valtinho saiu espalhando cartaz pela cidade, Adriano nem falava comigo pra não dar satisfação, essa bobeira de adolescente. Conclusão, o Tênis lotou. O dono do Palhoça olhou pra mim e falou ‘hi, rapaz, essa tal de Valtinho tá querendo foder com vocês mesmo, hem’. Daqui a pouco ele volta fumando um cigarro e fala assim: ‘ué, parece que aconteceu alguma coisa, tá dando problema ali, tá saindo fumaça, tá pegando fogo’. Os caras ligaram as caixas em duzentos e vinte e deu curto circuito em tudo, queimou geral. Um prejuízo medonho. Daqui a pouco sai todo mundo do Tênis e vai pro Palhoça curtir nosso show. A gente tava abrindo com Rita Lee: (cantando) ‘mas como vai você’. O dono do bar vira pra mim: ‘olha, se eles pedirem pra dar uma palhinha você não deixa não, hem’ (risos). Pois não deu outra, daqui a pouco chega eles com aquela cara, os instrumentos nas capas: ‘Zé Guto, a gente pode tirar um som aí?’ (risos).

O MANGUE – Houve uma vez em que pintou um empresário por aqui e os artistas ficaram doido pra ir pros EUA. Você se lembra?

ZÉ GUTO – Xii, só problema (risos). Uma tal de N.O.S, eu acho que era isso. Quer dizer ‘Nossa Opinião Só’, era uma banda de reggae de um angolano. Foi Apaga Luz que arrumou essa parada, ele conheceu esse cara e depois chegou aqui num carrão procurando a gente. O projeto era a gente ir pra Amsterdã e depois ficar seis meses na Jamaica, gravando. Quando chegamos pra ensaiar, numa mansão aqui em Campos Elíseos, tinha tudo do bom e do melhor. Só microfone Shure original, bateria Yamaha, guitarra Yamaha, o cara tinha fretado um avião de Nova York só pra trazer aparelhagem. Tinham outras bandas também de reggae que ensaiavam lá. Todo dia um voltava pra casa com um microfone, um pedalzinho, uma baqueta, um não sei o que, era dólar que o cara deixava cair (risos). Eu graças a Deus nunca tive esse hábito, mas o pessoal pegava. Moral da história, a gente já tava ligado que aquilo era uma lavagem de dinheiro do caramba. O cara chegava com um sax dourado e não tocava porra nenhuma. Mandava a gente parar porque tava errado e quando ele ia solar ficava ‘fon’, ‘fon’, fon’ (risos). Um dia a gente não foi ensaiar. Nesse dia a Polícia Federal bateu lá e levou todo mundo preso (risos).

O MANGUE – Você tinha fama de não deixar ninguém participar das negociações na hora de fechar um show, e uma vez descobriram que você combinou um preço com o contratante e deu outro valor para o grupo. Teve isso?

ZÉ GUTO – (risos). O pessoal também é fogo (risos). Não, não. Isso é mentira. Nunca teve isso não. (risos). É que eu que fazia a manutenção de tudo, a gente ia no meu carro, a bateria era minha, entendeu?

O MANGUE – Vocês chegaram a excursionar?

ZÉ GUTO – Teve um verão que a gente foi pra Cabo Frio, tocamos na Billy Bolly, no Bar da Academia, etc. Daí um cara que tava assistindo se apresentou como produtor da Marina, ela tava no auge nessa época e a gente tava tocando pra cacete. Ele disse que tinha gostado do som, que tava a fim de montar uma banda, e tal. Daí o Chimbraw falou: ‘eu sou primo do Frank Sinatra’. (risos). O cara se chateou, ficou puto. Quando eu soube da história, o cara já tinha vasado.

O MANGUE – E o Chimbraw?

ZÉ GUTO – Chimbraw era um caso a parte. Conheci de terninho tocando prato no Grêmio Recreativo, serinho, caretinha. Ele tinha muito ciúme. Então tinha outro baterista que andava com a gente, chamado Otacílio. Teve um dia que já tava tudo pronto no palco e quando ele viu o cara por ali, ficou doido. ‘Ué, vocês chamaram o cara? Então não vou tocar mais não, bota ele pra tocar’. E foi embora. Fazer o que né, aí pedimos pra Otacílio subir, e na hora de tocar Chimbraw voltou e tirou a caixa da bateria, que era dele (risos). ‘Com a minha caixa vocês também não vão tocar não’ (risos). Fomos atrás e ele pra não dar a caixa pra gente, jogou a caixa no rio (risos). Ele nem ia jogar, mas o diabo atenda, né. Arrumamos outra emprestada com uma escola de samba e fizemos o show. No outro dia já de manhã fomos pegar o ônibus e vem Chimbraw todo molhado com a caixa debaixo do braço, toda molhada que ele resgatou do rio (risos).

O MANGUE – Teve um show que vocês não fizeram por causa de uma briga, quebraram tudo.

ZÉ GUTO – Foi no Sítio do Feijão, no Vale das Pedrinhas. Eu tava tocando e uma mulher chamou ele pra me passar um bilhete com o nome de uma música. Ele achou que o bilhete era pra ele, e que a mulher tava dando mole pra ele. Aí segurou a mão da mulher e não queria soltar, ficou falando no ouvido dela, alisando o braço da mulher, que era esposa de um coronel. Quando o marido viu aquilo, meu irmão, o tempo fechou, puxou um trinta e oito, veio pra cima da gente, deu logo um tapa nele que o óculos voou longe e veio me puxando pelo rabo de cavalo que na época eu tinha (risos).

O MANGUE – Mas músico da noite é bem visado pela mulherada.

ZÉ GUTO – Ah, a noite é a noite (risos).

O MANGUE – O que mais mudou na sua vida depois que decidiu estudar a bíblia?

ZÉ GUTO – Tudo. Eu fiz primeira comunhão, fiquei enjoado e deixei de ir. Depois fui pra escola batista. Lá a mulher falou que se eu não passasse eu ia queimar no fogo do inferno. Cabou pra mim, falei vai queimar é tua avó. Aí comecei a achar que Deus não existe. Fui ser budista. Três anos praticando o Nichiren Daishoni Nam Myoho Renge Kyo, Nichiren Daishoni Nam Myoho Renge Kyo, Nichiren Daishoni Nam Myoho Renge Kyo. Os dez estados da vida. Legal, mas chega a um ponto que não tem nada a ver. Perde totalmente a sintonia. Meu pé não vai nascer na cabeça. Eu não vou ser uma árvore. Até que um dia eu ganhei um livro: ‘Poderás viver para sempre no paraíso na Terra’. Ah, aí encaixou a logística da coisa. Não era fantasia, era real. Não era uma coisa assim, ‘ah, Deus falou comigo’. Não. As coisas tinham a ver. Eu realmente fui criado pra viver na terra, mas ouve um problema. Se Deus quisesse que vivêssemos no céu, nos faria no céu. As pessoas querem o céu com cachoeira, com árvore, com maçã, já viu? Isso é porque o desejo delas é viver na terra, não no céu. Aquilo ali foi entrando em mim, e eu comecei a enxergar o invisível. Passei a ver claramente a atuação do opositor. É isso que Jesus quer dizer: pra você evitar passar na frente do bonde quando o bonde tá passando.

 

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