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Alunos desocupam o Balthazar após ordem judicial, ‘rachas’ e conquistas

Dois mil e dezesseis está marcado na história como ‘o ano em que estudantes ocuparam as escolas estaduais no Brasil’. Apenas em dois estados não houve o movimento radical em prol de melhorias na rede e de apoio aos professores grevistas, mas mesmo assim eles registraram suas reivindicações: Amazonas e Piauí. Por cerca de dois meses, somente no Ceará mais de trezentos mil alunos ficaram sem aulas. No Rio de Janeiro, dos mais de sessenta colégios ocupados, o Professor Alfredo Balthazar da Silveira, em Piabetá, foi o único em solo mageense.

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A pilha de livros que os alunos ocupantes descobriram na escola. Direção alega que já doou uma parte, e está esperando a Secretaria de Educação vir buscar o restante. Os ocupantes também dizem ter encontrado carnes estragadas na dispensa

E por aqui também o que se viu foi a minoria comandando a situação. São mil e quinhentos estudantes no Balthazar, mas apenas cerca de trinta — quase todos vindos de escolas ‘não-ocupadas’ (inclusive de outros lugares do estado) — aderiram ativamente. Da mesma forma, são sessenta e cinco professores, dos quais vinte manifestaram a greve, e os demais foram impedidos de dar aulas. Organizadas as comissões e levantadas as bandeiras, a realidade pode ser resumida em: assembleias sem atas, proibição da entrada de pessoas ligadas a escola (ou mesmo ‘de fora’, como jornalistas a fim de documentar as rodas culturais e as oficinas dadas voluntariamente por alguns professores), acusações sobre o uso de drogas dentro da unidade e sobre a venda de material escolar, e sobretudo a participação direta de instituições de visibilidade nacional com viés claramente partidários — sejam elas representantes dos secundaristas, de professores, ou mesmo sem qualquer vínculo com a comunidade escolar.

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Segundo os pais, esta foi a primeira reunião aberta à comunidade. Na verdade esta foi a segunda, pois na primeira houve rumores de vandalismo e as famílias se recusaram a participar ao saberem que teriam que entrar pelos fundos

A tal ponto que tais interesses e divergências políticas levaram à falta de comunicação interna e terminaram por minar o ‘Ocupa Balthazar’, redundando em algumas amizades desfeitas, ameaças de processos judiciais e a debandada de uma parte do grupo ao longo da jornada. Isto foi exposto com exclusividade pelos alunos remanescentes à reportagem de O Mangue no dia 5 de junho, enquanto se reuniam pela primeira vez com a comunidade, para informar que estariam desocupando a unidade no dia seguinte, em obediência à decisão da 2ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, proferida há poucos dias pela juíza Gloria Heloiza Lima da Silva. Na ocasião, os alunos fizeram mea culpa pelas falhas, celebraram objetivos alcançados, e afirmaram que a luta não vai parar. Enquanto pais, funcionários e alunos contrários à ocupação (alguns ligados ao movimento paralelo ‘Desocupa Balthazar’) puderam desabafar todo seu descontentamento:

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“Participei dessa ocupação só nos dois primeiros dias, mas vi que era baderna e não vim mais” – aluno
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Os ocupantes queriam que as famílias contribuíssem com sugestões sobre “como construir uma escola de qualidade”. Acabaram ouvindo poucas e boas

O Lado ‘B’ do Balthazar

— Acho que escolheram um momento muito ruim no nosso Brasil, que está quebrado, pra fazer as reivindicações dessas pautas. Eu queria que eles reivindicassem, mas que deixassem o professor que quer dar aula, dar aula. Porque o meu filho iria vir. E queria também que eles reivindicassem o respeito do aluno para com o professor. Porque eles dizem que a mídia mente, mas não mente quando mostra professor com olho roxo porque apanhou de aluno na sala de aula — diz Marcia Vieira, mãe de aluno.

— Sou totalmente contra, eu acho isso uma vergonha. Olha o tempo que foi perdido. Minha filha estudou no Balthazar, nunca repetiu série, se formou em professora e está fazendo pedagogia. Porque isso não depende só dos professores e da administração. Depende também do próprio aluno. Se o aluno vem pra bagunçar, não vai aprender nada – opina o pai de aluno, Edinaldo Galdino.

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“Sem necessidade. Só atrapalha a quem quer estudar. Aqui tem merenda, tem água, é limpo, tem segurança. Eu acompanho os deveres dos meus filhos e sempre esteve tudo normal” – Luciana e filhos

Já a diretora do Balthazar, Eneida Velasco, aproveitou para desmentir os alunos que disseram que ao chegar para ocupar a escola, a direção já havia abandonado a mesma.

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A diretora Eneide, caluniada pelos alunos ocupantes: “eu não abondei a escola”

— Eu não abandonei a escola. Os alunos chegaram, falaram que a luta era contra o governo e não contra a direção, nós tentamos dialogar, mas pediram pra nós sairmos. E nós nos retiramos. É um direito deles, foi o que eles falaram pra mim e pra quem estava presente.

— Eles alegaram que a ocupação foi pacífica, mas o que aconteceu não foi bem isso. Tiveram alunos ameaçados e proibidos de entrar na escola. Tinha uma lista com nomes de alunos e professores proibidos de entrar. Houve um caso de um professor que tentou entrar pra pegar o material dele que estava na sala dos professores e foi ameaçado por um aluno que está aqui no momento. Esse aluno falou pro professor que se ele tentasse entrar, iria apanhar aqui dentro — disse um aluno, durante o ‘sistema de falas’.

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Um aluno ‘não ocupante’ enfim pôde expressar sua opinião, e foi muito aplaudido: “Vocês agiram como marginais” 

— Eles falam que o aluno não passa no Enem sem aula de reforço. Eu conheço quem passou sem precisar de reforço. É só prestar atenção nas aulas e estudar. Falam que os professores não são amigos deles. Poxa, eu tenho vários amigos professores aqui. Sei que eles estão lutando por direitos, mas eu vi muita coisa errada. Eles estavam vendendo por R$ 3 os gibis que a escola ganhou, dizendo que era pra comprar gás. Mas pra comprar gás toda semana? Eles ficavam tocando esses instrumentos da banda lá fora até tarde da noite incomodando quem mora ali na frente. Ficavam com bebidas aqui dentro, alguns tiraram fotos fumando baseado — expõe outro.

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— Vocês falaram que querem o direito de vir estudar de chinelo, de bermuda, de toca, de boné, de chegar a hora que quer. Mas eu pergunto: vocês vão fazer isso na faculdade? Vocês vão fazer isso no trabalho? Quando o chefe de vocês mandar vocês tirarem o boné, vocês vão ocupar o serviço de vocês também? Vocês mesmo quebram, rabiscam, e depois querem exigir algo novo pra continuarem a quebrar e rabiscar? — argumenta mais um.

 

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Adrielle é faxineira no Balthazar e apesar de jovem parece ter muito o que ensinar: “foi um ato extremamente mal feito. Quando tentamos entrar pra fazer nossa votação, eles nos xingaram, agrediram e ameaçaram”
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“Tem mãe sem poder trabalhar, porque a escola está ocupada”
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“Vocês têm noção do que vocês fizeram? Vocês só estão pensando em vocês mesmo!”

A funcionária Adrielle também não poupa em críticas:

— Ameaçaram a minha mãe. Minha amiga quis entrar pra pegar o uniforme dela e vocês não deixaram. O meu também está lá até hoje. Nós, terceirizados, com a corda no pescoço e em cima da cadeira e vocês vieram pra chutar a cadeira. Nós não podemos ficar em casa recebendo dinheirinho no nosso bolso, a gente precisa do nosso emprego. A firma quase manda a gente embora por causa da atitude de vocês. O lugar de vocês lutarem é dentro da sala de aula. Quando ver alguma coisa errada, tem que chegar na direção e falar. Educação vem de casa, não da escola. Aqui é pra vocês se formarem pra ter um futuro melhor. Eu também estudei aqui, e nesses três anos que estou aqui eu vi melhoria no Balthazar. Essa quadra não era assim, isso é fruto do Balthazar. Vocês aqui têm de tudo. A alimentação é boa, a estrutura é boa. Mas pra gente aprender, a gente tem que ter força de vontade. Eu tenho vinte e três anos, trabalho varrendo o chão, mas estudo, faço curso, quero ser alguém na vida. E não é fazendo isso que vocês estão fazendo, que vocês vão conseguir alguma coisa. Vocês estão lutando pelo direito de vocês, mas se esquecendo dos direitos dos outros. Querem lutar? Vão lá na casa do governador, abram o portão igual fizeram aqui e ocupem! – disparou.

Perdas e Ganhos

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As greves e ocupações levaram à exoneração do secretário de Educação Antonio Neto e do chefe de Gabinete Caio Lima. Na foto, o coordenador regional Jelcy Corrêa chegou a ser hostilizado pelos ocupantes

Esteve presente na reunião o diretor regional administrativo da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc), Jelcy Corrêa, que se comprometeu a cumprir as exigências dos alunos, dentre as quais a adequação de um ‘banheiro transex’, e a inauguração do vestiário e de um campo com grama sintética, que devem ser feitas com uma cota extra de até R$ 15 mil que o estado está liberando para cada unidade.

— Eu compreendo a posição deles, do quanto eles precisam de uma pessoa pra odiar, por isso eles me xingam tanto. É necessário ter a figura do ódio personalizado, e o Jelcy pode ser esse camarada, não tem problema. Essa desocupação não é uma derrota deles, mas ela está acontecendo em comum acordo porque algum objetivo foi alcançado. E quero chamar a atenção de toda a comunidade pra uma questão: não esqueçam de participar da escola. Porque senão vamos ter sempre a imposição de minorias (…) a divisão não é necessária e é indesejável nesse colégio. Não quero que essas pessoas que ocuparam sejam olhadas como inimigas. Mas temos que melhorar o índice de participação, pois senão são pouquíssimas pessoas que vão decidir o que nós temos que fazer — discursou.

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Foram contabilizadas, em todo o estado, mais de 1.200 transferências de escolas para os alunos contrários a ocupação, e cogitou-se até lugares provisórios para que as aulas não fossem perdidas. Com o decreto de recesso nas escolas ocupadas, elas deixaram de receber a verba do mês de maio para alimentação e limpeza

Em nota endereçada ao site O Mangue, a assessoria de comunicação da Seeduc cita alguns prejuízos das escolas fechadas: interrupção de projetos sociais, como a preparação para o trabalho e vestibular social; atraso nos estudos para o Enem; interrupção de cursos técnicos sem reposição; estudantes sem acesso a documentos necessários para o início em empregos, concursos, estágios, transferências, etc. Para a reposição das aulas, estão previstos os sábados do segundo semestre e o mês de janeiro de 2017.

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“A nossa luta é todo dia contra o machismo, racismo e homofobia”; e “Lutar pra garantir, ocupar e resistir”, são palavras de ordem transformadas em cânticos. Uma das revoltas é com as isenções fiscais do governo estadual a empresas, que em seis anos somaram R$ 138 bilhões, que poderiam ser investidos na Educação

A assessoria informa ainda os benefícios cedidos pelo estado, em decorrência dos diálogos firmados com grevistas e ocupantes em reuniões na sede da Seeduc. Eis alguns: abono das greves que aconteceram entre 1993 e 2016; nenhuma disciplina com menos de dois tempos a partir de 2017; as disciplinas de Filosofia e Sociologia passam a ter dois tempos no 1º ano; a votação de projetos de leis na Alerj que permitem funcionários administrativos das escolas trabalharem com carga horária de 30 horas semanais, e que diretores sejam escolhidos pelo voto da comunidade escolar (o que já acontece no Balthazar); o último Saerj acontecerá no final deste ano e, em 2017, haverá uma reformulação para um simulado preparatório para o Enem; a intermediação junto a Alerj e ao MP para que a recarga do RioCard seja feita uma vez ao mês e não mais toda semana; um professor por escola (atualmente, 91% dos professores já encontram-se em apenas uma escola); enquadramento por formação que regulariza até o fim deste ano os valores referentes a 2016; as quantias relativas aos anos de 2013, 2014 e 2015 parceladas em 24 meses a partir de janeiro de 2017; a utilização do Fundeb para pagamento aos professores com data antecipada ao 10° dia útil.

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Ocupação ao Balthazar: aprendizado

SEPE, PSOL, AERJ, PCR, UJS, RUA, …

Uma série de siglas, quase o alfabeto inteiro, está por trás – e no meio – das ocupações pelo Brasil. No Balthazar, os ocupantes, preferindo desta vez o anonimato, apontaram o casal de professores: Gilberto Rodrigues (ex-professor da unidade e diretor regional do SEPE – Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação) e sua esposa Daniela Abreu (professora de Artes no Balthazar e que teve recentemente seu nome sugerido pelo PSOL — Partido Socialismo e Liberdade — para disputar as eleições majoritárias em Magé), de “manipular” e “orientar” o movimento de maneira até “agressiva”:

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O movimento sofreu séria divisão, e este foi o grupo que ficou até o fim. Ao anunciarem o término da ocupação ao Balthazar, alguns já se mobiliaravam para ocupar outras escolas no Rio

— Não tem sectarismo aqui dentro. Você pode ser de qualquer grupo, que você é aceito, todos nos dávamos muito bem. Porém, esse grupo específico começou a incitar algumas coisas aqui, ao ponto de trancar aluno dentro de uma sala e chamar de mentiroso. Eles afirmavam que pessoas eram de um grupo, no caso da AERJ – Associação dos Estudantes do Rio de Janeiro, que é uma entidade que se espelha em alguma coisa do PCR, Partido Comunista Revolucionário, que não é legítimo ainda. Na verdade, é como eu disse. Tem pessoas ligadas ao AERJ, sim. Mas os que são, não eram acusados por eles. Mas, nós que não somos, eles nos acusavam. Assim como acusavam outros de pertencerem ao UJS – União da Juventude Socialista, que é do PCdoB. Ela acusava a nós, secundaristas, mas não acusava ninguém de coletivo, como o RUA, que é do PSOL, e que também estava aqui.

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O aluno Paulinho foi um dos que se ausentou da ocupação pouco antes de ela acabar, e também foi um dos que barrou a visita do site O Mangue para cobertura jornalística no dia 15 de abril (foto tirada na ocasião). Na semana seguinte, os alunos toparam fazer uma matéria para o jornal Enfoque, cujo fundador é esposo de uma professora filiada ao SEPE – e seu filho, diretor do jornal, é ex-aluno do Balthazar
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O casal Daniela e Gilberto é referência na luta da Educação no Rio de Janeiro. Aqui, em selfie tirada na única noite em que dormiram na ocupação, antes de romperem com o grupo – a foto ganhou as redes sociais

— A gente começou a observar que não estava mais havendo autonomia dos alunos. Foi quando a gente decidiu que tudo que fôssemos fazer, seríamos nós que iríamos tomar a frente, e só os estudantes ocupantes é que teriam direito a voto nas assembleias. Tivemos que ter uma força muito grande, era uma pressão psicológica muito grande, eu pensei em abandonar a ocupação por várias vezes.  A gente questionava o porquê de haver essa briga, se nossa luta é igual. O importante é mudar a Educação. Se isso fosse importante, iríamos nos unir e fazer. Mas não, preferiram ficar em briguinhas. E quando a gente decidiu que não deixaria isso acabar com nossa ocupação, eles mesmo foram saindo. Pegaram a página ‘Ocupa Balthazar’ do Facebook, e fizeram uma outra chamada ‘Coletivo Balthazar Livre’, dizendo que a ocupação não representava mais eles – continua o aluno.

“Contra o método, não contra o grupo”

Contactados para darem sua versão dos fatos, Gilberto e Daniela enviaram à reportagem, dois textos, os quais podem ser lidos abaixo. O primeiro é assinado pelo professor:

“Nós somos sérios, somos de esquerda, somos de luta. Eu como diretor do SEPE me coloquei totalmente a disposição da ocupação no seu início, inclusive preocupado com a segurança dos alunos. Toda semana disponibilizava transporte para assembleias e atos, além do suporte de advogados, como foi o dia da assembleia comunitária, a qual surgiu um grande grupo do desocupa liderado por profissionais terceirizados da escola e por um funcionário da Polo da Coordenadoria, denominado Tiago. Estive com eles na delegacia quando a escola foi roubada na madrugada, um roubo estranho, onde foi levado apenas a TV patrimoniada. Nossas críticas à ocupação vieram quando alunos nossos pediam socorro dizendo que suas vozes não eram ouvidas, e se viam dominados por um grupo ligado a AERJ oriundo de outras escolas inclusive alunos do Alda. Seria legítimo a ajuda de outros a ocupação do Balthazar, mas esta deveria pertencer primeiramente aos próprios alunos da escola. Alunos denunciavam que faziam assembleia a qualquer hora, barravam de entrar na escola quem não concordava com eles, e usavam de métodos autoritários. A ocupação foi esvaziando eles se empoderam e a excluíram os alunos do Balthazar. Uma série de erros. Quando nos afastamos da ocupação, eu deixei com eles os telefones de outros diretores do SEPE-Magé, para que o SEPE continuasse a dar suporte, mas cheguei a ser vítma de uma armação de prints, e com uma greve tão grande para gerir, não podia mais me desgastar em um local onde a confiança foi perdida, e não concordávamos mais como as coisas ali dentro. Cheguei a ficar preocupado, pois depois que eu parei de estar presente e principalmente um grupo de alunos do Balthazar comprometidos com a luta, que saíram e foram continuar a luta na ocupação da SEDUC e outras escolas, percebi que passaram a não ter mais dinheiro nem pra gás nem pra comida. Infelizmente se Isolaram por seus métodos autoritários. Poderiam ter tido uma ocupação linda, com envolvimento da comunidade escolar e entorno. Eles barraram alunos que queriam fazer uma horta comunitária lá dentro. E dizer que a gente era contra a ocupação? Desde o primeiro dia que estive lá, eu falei: ‘não sou contra o grupo, sou contra o método’. Esse método que eles utilizam é autoritário, é vertical e excludente. O projeto era muito bonito, era envolver toda a comunidade escolar, construir seminários pra repensar as práticas pedagógicas, discutir a autonomia do professor. Isso tudo foi desperdiçado por eles, não quiseram. Esperam que reflitam e hoje não se contentem em poder transferir suas matrículas para o Baltazar e uma sala só pra eles com direito a ar condicionado, mas lutem por uma escola democrática, que faça de forma transparente a eleição para direção e faça valer a lei do grêmio livre, dando o direito de todos os alunos a se organizarem”.

O segundo texto é assinado pela professora:

“As ocupações foram fundamentais para que a sociedade brasileira voltasse os olhos para dentro das escolas públicas e verificasse o quanto estas estão sucateadas. Eu como professora há dez anos na escola, sempre estimulei a visão crítica dos meus alunos, principalmente em uma cidade como Magé marcada pelos desmandos, coronelismo e uso da máquina pública. Estou na greve como estive em todas, e ajudei no que foi preciso a ocupação, levei muitas oficinas, até a filha do Waldimir Palmeira, Bel Palmeira, para falar da ditadura, ajudei recolhendo alimentos, e montei uma peça de teatro com eles. Nunca participei de nenhuma assembleia da ocupação, mas presenciei muitos equívocos políticos, principalmente quando barravam alunos da escola de participar, ou quando percebi que perderam o foco da luta da educação. Me preocupei com o desocupa,muito medo de aluno agredir aluno, e foi a semana que mais tentei ajudar. Fui barrada algumas vezes por eles desde a 1ª semana, até ficar em dúvida se eram equívocos, ou se eram ações orientadas, pois até armarem um print sobre Gilberto Diretor do SEPE fizeram. Nós professores fizemos um rodízio para ajudar a ocupação e ia nos meus dias, e quando solicitavam, aos poucos muitos professores grevistas foram se distanciando. No início a organização deles era por equipes, e a equipe de comunicação que cuidava da pág, fiz uma proposta para que fizessem rodízio para que todos passassem por todas as experiências, mas eles decidiram que não. Um grupo de estudantes do Balthazar se viram descontentes com as coisas ali dentro, e infelizmente passaram a repudiar entidades e partidos, acabaram formando um coletivo livre e autônomo e embora os respeite, não tenho nada haver com suas atitudes. Acredito no direito de toda e qualquer pessoa de se organizar como quiser e onde quiser, mas não podemos impor a nossa organização e aparelhar os movimentos sociais. Nesses meus trinta anos de luta militantes e dez na cidade, nunca misturei minhas escolhas partidárias com movimentos sociais, embora espero sempre que meu partido esteja sempre do lado dos movimentos sociais e da luta. Não é fácil ser do PSOL na cidade dos coronéis e da compra de votos. Sei o quanto incomodo por isso já fui deveras perseguida, retirada da minha escola de origem e mesmo do Balthazar, e foram os estudantes que me trouxeram de volta em 2007. Parei de ajudar quando de fato não podia mais confiar, e via que pouco restou de alunos e professores do Baltahazar envolvidos. Os vejo como jovens,cheios de vontade de lutar, talvez com uma formação equivocada e espero que não se deixem usar pois nosso inimigo é outro”.

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Os alunos garantiram que as pessoas teriam o tempo que achassem necessário para falar ao microfone. Mas ficaram apressando-as com mensagens
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