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Bruno Almeida fala da carreira e outras paradas – “Eu mergulho fundo!”

Cuidado, Leia com Moderação.

A resposta ao pedido do jornalista Bruno Almeida, 37 anos, para que alguns de seus colegas de profissão fizessem uma entrevista com ele e publicassem em seus respectivos veículos foi um sonoro “NÃO”. Alheio à fama de difícil e polêmico, restou-lhe então jogar da única maneira que sabe: limpo; e resolveu fazer consigo uma autoentrevista, publicando-a como tal.

No fim, já editando o material, madrugada gelada de um domingo, ouvindo um CD do Lô Borges, recordando-se das passagens vividas, nosso personagem avalia que todo mundo deveria, pelo menos um dia na vida, fazer o mesmo. Por curiosidade ou terapia: se entrevistar, se conhecer, ouvir de você as suas versões, se expor, se contestar, se contradizer. As memórias que sobressaem nesse caso são dos bastidores do jornalismo e da política em Magé: a morte de Geraldão, Associação Mageense de Imprensa, processos jurídicos, muito mais, é isso que você vai ler agora.

O MANGUE – VOCÊ É MAGEENSE? QUAL SUA RELAÇÃO COM A CIDADE?

BRUNO ALMEIDA – Eu sou mageense, minha mãe é professora do estado, se aposentou como coordenadora do NAPES, Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado, no Instituto Carlos Camacho, e meu pai era um autodidata em todos os sentidos, empresário do ramo de bebidas e tinha também uma gráfica aonde ele editava o jornal dele, a Tribuna Livre. Eu ficava por ali e tal,…lembro dele me dizendo pra nunca deixar de ler jornal, mas não me interessei pelo jornalismo logo de cara não. O gravador pra mim era só pra ouvir fita e gravar as músicas que eu inventava, essa é minha brincadeira até hoje. Mas fui estudar jornalismo, me formei, e depois de trabalhar em outras cidades eu voltei pra cá em 2014, pra trabalhar com jornalismo aqui, esse é um sonho realizado. Não sou nenhum deslumbrado com a cidade não, ela tem coisas ótimas mas também tem muitos problemas que não devem ser varridos pra debaixo do tapete. Seria ótimo por exemplo se as pessoas em geral não fossem tão acomodadas quando o assunto é reivindicar seus direitos.

O MANGUE – COM CERTEZA VOCÊ PEGOU MUITA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL NOS JORNAIS POR ONDE PASSOU. E HOJE EM DIA VOCÊ COLOCA ISSO EM PRÁTICA COMO REPÓRTER E EDITOR DO SEU SITE, O MANGUE…

BRUNO ALMEIDA – Isso. Foram três anos no Primeira Hora, um jornal semanal em Búzios, e alguns meses na Folha da Manhã, um diário em Campos, além de um estágio intensivo na Folha Dirigida, no Rio, e outras colaborações paralelas, não-remuneradas, site Viva Favela e por aí vai. O Mangue foi construindo sua linha editorial aos poucos, de acordo com as próprias matérias que iam pintando. De premeditado eu só tinha a certeza de que eu teria que fazer algo diferente do que já vinha sendo feito na cidade. Se os outros sites e jornais fossem por um caminho, eu teria que ir por outro, em respeito ao leitor que merece e precisa ter acesso a pontos de vistas dos mais variados. Eu teria que conquistar o meu público. E até hoje é assim. Não posso ser um mero reprodutor de conteúdos alheios, eu sempre primo pela exclusividade e pelo ineditismo das reportagens. Então eu tento focar minha energia naquilo em que os leitores ainda não sabem, enquanto os assuntos publicados em primeira mão por outros sites eu vou deixando um tanto quanto de lado, ou então eu exploro pontos que eles esqueceram de explorar. Mas comigo você nunca vai ler “mais do mesmo”, vai ter sempre coisa nova. Procuro sempre pensar com a cabeça do leitor: o que o leitor ainda não sabe e precisa saber? É assim que eu trabalho. E eu trouxe muito dessa bagagem do que eu aprendi nas chamadas grandes redações sim, mas muito também do que aprendi com o chamado jornalismo independente, gente que eu vim a conhecer enquanto fazia a cobertura das Manifestações 2013 em Campos, pessoal da Mídia Ninja, Zona de Conflito, Fora do Eixo, esse pessoal mais da minha geração, essa galera que tem na veia o jornalismo comunitário, cidadão, alternativo, que dá voz realmente pras pessoas, que pega e faz mesmo com poucos recursos, e principalmente que não tem ciúme do trabalho alheio e nem abre mão de nadar contra a corrente. Então, o que eu trago de experiência, é que vai ter gente que vai querer te usar, nem sempre todo mundo está disposto a te entender, sobretudo quando se mexe com política. Se veem você falando com fulano, acham que você está com o fulano, se você fala com beltrano, então você é beltrano, e não atentam para que nessa atividade você tem que falar com todo mundo. Além do mais você não deve existir pra agradar “a” ou “b”, você deve existir pra informar. E nem existe essa de “notícia boa” ou “notícia ruim”, isso são coisas relativas, aí quem define já é o senso comum, é o interesse particular das pessoas. Pra nós existe só a “notícia”. O que vale é o interesse público e a atualidade da história. Isso é uma coisa que você tem que ter em mente e tem que servir pra te encorajar, porque muita gente leiga e mal intencionada não vai querer te entender. Eu vi por aí muita gente difamar pessoas que não mereciam, só porque o trabalho delas incomodava, então se você escolhe esse caminho você tem que tá pronto pra ser perseguido, injuriado, caluniado,..isso tudo é o de menos. E em se tratando de Magé, então,…essa é uma cidade que prende muito as pessoas pela política…

O MANGUE – ESSE É UM DOS PROBLEMAS MAIS GRAVES DA CIDADE NA SUA OPINIÃO?

BRUNO ALMEIDA – Sem dúvida. O que esperar de uma cidade em que o maior empregador é a Prefeitura? Os políticos não querem que isso mude, porque eles podem te empregar, te demitir, mas seu nome pode continuar na folha pra alguém receber o seu dinheiro no seu lugar. Isso é uma das coisas que a gente sabe que acontece. E outra, você chega em um determinado setor do subsolo da Prefeitura, lugar que só tem quatro cadeiras pros caras sentarem, e tem dez pessoas trabalhando. E aí, faz como? Não cabe dez pessoas trabalhando ali. Isso é só pra você ter noção do que acontece por aí afora nas ruas. É muito cacique pra pouco índio, os caras batendo cabeça aí sem fazer nada, um monte de morcego voando por aí em horário de expediente,…Todo mundo quer o emprego, nossos impostos vão todos pra pagar essa folha inchada que criou-se no município. Isso tem que acabar. E ainda acham ruim quando alguém fiscaliza? Ora, faça-me o favor. Mas a galera não quer que isso mude, porque acostumou no bom, acostumou com esse ritmo e fica nessa, nessa dependência de político. E fora o pessoal de movimento social, de sindicato, de associação, que está ali ao redor do poder pra fiscalizar, pra reivindicar, mas ao mesmo tempo faz parte do poder e não abre mão dos jeitinhos, das indicaçõeszinhas, dessas coisinhas. Tem isso. Tem gente que faz disso uma espécie de profissão autônoma, um negócio de família, uma coisa assim particular. Você não vê renovação de pessoas nesse meio, acaba se formando um grupo, um ciclo vicioso em que as mesmas coisas que foram proteladas por governos passados são proteladas agora, então onde isso vai parar? Cara, tem membro de sindicato dos servidores que nunca foi convidada pra uma eleição da diretoria em dezesseis anos. Em conselho municipal tem gente que tá junta todo dia, a semana toda, por anos, e você faz uma mesma pergunta pra essas pessoas e cada uma responde uma coisa completamente diferente da outra, eles não se entendem entre si, eles se contradizem sobre os assuntos que eles deveriam dominar, que deveria ser consenso, afinal não se trata de opinião e sim de fatos, de números, de coisas práticas. Então até pra fazer jornalismo é muito complicado, vamos dizer que a maioria das pessoas que detém informação não quer compartilhar, você tem que ir pelas beiradas, mas ao mesmo tempo se impor e defender a importância, o direito e a qualidade do seu trabalho. E o que acontece aqui? O empresariado não chega junto e acaba sobrando pro político financiar, e eles por sua vez têm os interesses deles em troca, então é uma forma de te amarrar. Por isso que eu já disse, se for pra trabalhar com político eu prefiro quem está na oposição, porque em primeiro lugar você fica mais tranquilo sobre a possibilidade de o dinheiro ser menor, mas ser limpo. Segundo porque é um pessoal que fica menos no seu pé, oposição é um termo muito amplo, envolve em geral várias vertentes, os caras tem mais diálogo do que o governo que vive fechado no mundinho deles querendo esconder coisas. E em terceiro, porque qualquer tipo de contestação, de questionamento, de crítica, de embate, sempre vai ter mais a ver com jornalismo do que essa puxa-saquice que o pessoal faz em jornal, em site, na rua, seja onde for por aí pra defender político de mandato. Poxa, aconteceu comigo quando eu fui pedir um patrocínio à dona de uma corretora de imóveis. Nós estávamos perto do prédio da Prefeitura e ela apontou e falou: “ali, olha, vai ali, fala com fulano assim, assim, assim…” Poxa, quer dizer, nem pessoas que a gente considera como esclarecidas querem um jornalismo independente, descomprometido com o governo. E aí é foda, né. O poder, por sua vez, não gosta de ser incomodado, de ser questionado, de ser cobrado, enfim, o que eles puderam fazer pra atrasar, eles fazem. O poder só quer aparecer se for pra ficar cem por cento bem na fita, só que, quanto mais ele acha gente pra fazer esse tipo de propaganda, mais a realidade joga contra ele. Sacou? Então termina pra eu cobrar mesmo, e daí eu faço com o maior prazer, pra ver se essa mentalidade uma hora muda. Eu forço a barra. E eles pra se sentirem um pouco mais felizes e desviar o foco do problema, precisam de alguém pra chamarem de “oposição”, pra fazer o papel do maluco, do chato, pode ser eu, não tem problema.

O MANGUE – VOCÊ SE CONSIDERA UM JORNALISTA INVESTIGATIVO?

BRUNO ALMEIDA – Não, não. Isso foi um rótulo que me deram. Mas eu não me especializei em nenhum tipo de jornalismo, eu faço de tudo um pouco, assuntos gerais, deveria até fazer uma pós-graduação mas ainda não pude. O que ocorre é que todo jornalista tem que investigar alguma coisa antes de publicar, então nesse sentido todos somos, ou deveríamos ser, investigadores. Se por acaso alguém pensa que me destaco, é porque me aprofundo mais nos assuntos do que a maioria, isso aí sem falsa modéstia. Eu mergulho fundo!

O MANGUE – E ESSE NOME, “O MANGUE”, DA ONDE VOCE TIROU?

BRUNO ALMEIDA – Eu tava no caminhão da minha mudança voltando de Campos, e o motorista me perguntou se eu já tinha um nome pra esse site que eu falava tanto que iria fazer. Eu olhei para aquele manguezal ali da APA GUAPI e fiquei tentando pensar em um nome. Mas na hora não vinha nada. Mal eu sabia que eu estava olhando para a resposta. O estalo veio alguns dias depois quando eu tava ouvindo uma música do Gil e do Caetano chamada “Divino Maravilhoso”; aquela parte que fala: “atenção para as janelas no alto, atenção ao pisar o asfalto, o mangue, atenção para o sangue sobre o chão, tudo é perigoso…”. Quer dizer, é um estado permanente de atenção esse em que o jornalismo vive, e é o mesmo estado de atenção que o público leitor tem nessa relação dele com as notícias, com a urgência em que as notícias são consumidas em um âmbito geral. Eu achei que tinha tudo a ver. E daí essa palavra “o mangue” me saltou aos olhos. Ela traz dentro dela a palavra mage, e eu comecei a pensar em “mangue” como uma identidade local e também como um conceito: ele é o berçário dos oceanos, então isso remete ao começo de tudo, o começo das apurações jornalísticas, quando o assunto ainda é embrionário, quando a coisa ainda está nascendo. Tracei um paralelo entre esse ecossistema e um provável “ecossistema de informações” onde eu trabalho com várias linguagens, como textos, vídeos, fotos, áudios, etc… Pensei no mangue como algo que deve ser preservado, isso vai de encontro à excelência da notícia e da credibilidade editorial, que são algo raro, valioso, frágil, insubstituível, sem a qual não se vive no mundo de hoje. O mangue é sinônimo de riqueza, de biodiversidade. O Mangue no sentido físico é um santuário ecológico, já nesse campo de informações que eu propus seria um espaço de resguardo à democracia, à transparência, à liberdade, isso tudo precisa para que todo o habitat funcione. A informação é tão essencial pra vida em sociedade quanto os manguezais são para toda a vida humana – não só marinha. Por um lado, o equilíbrio ecológico, por outro o equilíbrio dos debates, das opiniões. Enfim. E eu já previa toda essa luta que eu teria que encarar, então vem o mangue como sinônimo de resistência por ele sofrer tantos problemas também, com os aterros, desmatamentos, especulação imobiliária, isso tudo que a gente vê aqui e pelo Brasil afora. Você veja só, assim que eu lancei esse site um amigo meu jornalista de Recife entrou em contato comigo, dizendo que se identificou muito simplesmente pela proposta do nome, é um nome emblemático, representativo, forte, que faz até a gente se lembrar de que “opa, existe alguma coisa que a gente até sabe que a gente conhece, mas que a gente precisa conhecer melhor”. Esse cara disse que a especulação imobiliária já devastou os mangues de Recife, os do centro da cidade, aliás. E eles lá têm essa cultura mangue-beat, Chico Science né, aí então é que tudo faz sentido. Mas é isso. O Mangue fala de vida. É um lugar, que não por acaso está “a margem”, portanto dali se tem uma visão panorâmica privilegiada das coisas, e é um lugar seguro, de salvação, pra onde muitos seres-vivos, de várias espécies, migram dependendo do fluxo e refluxo da maré.

O MANGUE – VOCÊ DIZ QUE NÃO SE CONSIDERA JORNALISTA INVESTIGATIVO, MAS TEVE AQUELES VÍDEOS DIVULGADOS COMO SENDO DO BLOG DA NÚBIA…

BRUNO ALMEIDA – Ah, ali sim. Ali foi investigativo total, só que como a cidade é pequena eu mesmo fiz questão de dizer que era eu mesmo que tava fazendo. Foi um free-lancer. O que houve foi o seguinte, chegaram pra ela e falaram: “olha, jornalista pra fazer isso que você quer, aqui só um tal de Bruno Almeida”. Daí ela me chamou e eu fui. Averiguei tudo que ela tinha de informação, de documento, e fui fazer a minha apuração e as coisas bateram. Mas era minha ideia fazer um lance muito mais jornalístico, e acabou que ficou muito político o produto final. Não gostei disso. Quero até dizer ao Vandro Família, ao Jean, aquele outro lá da van também, e o outro dono da Four Friends, o sobrinho do Marquinho Portela, os Nalin, os Cozendey, e até ao Tubarão, que eu não tenho nada pessoal contra eles não, e até fiquei triste porque eu queria ter ouvido a eles nos vídeos. Jornalisticamente seria o certo. Mas, se não fosse do jeito que foi, não seria a Núbia Cozzolino, né. O blog leva o nome dela, então tem que ter a cara dela mesmo, teve que ser o que ela quis, ali realmente eu fui um operário, toda responsa editorial é dela. E o que acontece? Quem conhece sabe que ela centraliza as coisas mesmo, gosta de se envolver em cada parte do processo, pegou o microfone e começou a narrar, e quer dizer, foi maneiro, aprendi bastante ali, ela é loucona, eu admiro a obstinação dela, mas eu ainda quero tocar um trampo que tenha a minha identidade, e ali eu estaria muito limitado, por isso resolvi sair. Não teve briga, nada disso, o pessoal que trabalha com ela também são todos dez. Mas foi ótima sua pergunta, porque eu não tenho um pingo de remorso de ter participado daquelas produções. Por incrível que pareça, eu como mageense não conhecia ninguém da família Cozzolino, nunca tive contato assim ao ponto de conversar. Conhecia de longe. Eu hoje conheço praticamente todos os políticos da cidade, já critiquei a maioria. Mas faltava eles, na época deles eu estudava, não tinha site, não tava aí pra essas coisas. Então nem adianta quem comeu junto com ela no governo dela vir agora dar uma de moralista e de hipócrita logo pra cima de mim que não vai colar. E também eu já avisei à família lá de Fragoso que eu não tenho pudor nenhum em criticá-los se tiver que fazer. Eles que se preparem. Gostei deles como pessoas mas não tenho político de estimação, quem me conhece sabe disso.

O MANGUE – O SITE “O MANGUE” FICOU UM BOM TEMPO FORA DO AR? O QUE HOUVE?

BRUNO ALMEIDA – Sim, ficou desde fevereiro, parece. Olha, eu andei muito desiludido com esse meu trabalho aqui, você fica batendo em ponta de faca, sem nenhum apoio dos seus amigos de profissão que estão todos com seus compromissos, sem nenhum apoio do empresariado que fica com medo de te patrocinar e depois sofrer perseguição política, sabe como é,…a gente acaba tendo que se dividir entre vendedor de anúncios e repórter, e são duas coisas difíceis de conciliar, requerem muito tempo. Então decidi parar um pouco e fui fazer outras coisas. Eu consegui que “O Mangue” fosse o primeiro jornal diário da cidade, mas ele durou apenas vinte e sete dias, ininterruptos. Eu fazia de casa mesmo, com uma impressora que eu tenho. Era um jornal em preto e branco, impresso em uma folha A3 dobrada, então ele ficava tipo um tabloide com quatro páginas. Eu fazia tudo sozinho e ainda distribuía de bicicleta em quinze bairros aqui do primeiro distrito, eram cento e cinquenta jornais todo o dia, as pessoas adoravam, tinha gente que me odiava dentro das repartições da Prefeitura ao ponto de recortarem matérias e colarem nas paredes pra nunca me esquecerem, era um sucesso. Mas a pessoa que me incentivou a fazer, que foi o José Ricardo, proprietário do Mercado Coletivo, ficou com medo dessa minha postura de embate, e desistiu de buscar anunciantes pra mim. É que ele trabalha na Secretaria de Administração, e colocaram medo nele dizendo que ele ia ser demitido por minha causa, é esse o tipo de coisa que acontece em Magé. Isso foi o próprio Zé Ricardo que me falou, que ouvia essa piadinha dos colegas de trabalho dele. Outro que me disseram que foi pressionado foi o Leo, da Papelaria Cidade, ele me cedia as folhas, eu tinha o maior prazer em anunciar a Papelaria dele. Mas o Leo disse que isso não foi verdade não, que ele parou com a permuta porque o negócio está difícil financeiramente, e eu acredito nele, ele tá até vendendo a loja. É o Leo filho do Dilim, um abraço meu querido, obrigado por tudo. Eu tenho muita gente a quem agradecer por esse trabalho, nossa, muita gente. A minha família pra começar. São pessoas que acreditam, que te incentivam, não medem esforços. Se eu fosse citar todos aqui não daria espaço. Mas quem é sabe. E eu quero aproveitar e dizer que estou voltando com o grupo de zap, porque é uma forma democrática de participação, você recebe as sugestões de pauta, debate sobre elas, dá satisfação em tempo real sobre a confecção de cada matéria, então é um feed-back maravilhoso, e é assim que tem que ser, o patrão do jornalista tem que ser o povo. Então eu tô fazendo esse grupo voltado para os sócios-patrocinadores do site. Cada um com dez reais na conta por mês, vou tentar essa parada pra manter o trabalho, senão não dá.

O MANGUE – VOCÊ JÁ SOFREU PERSEGUIÇÃO POLÍTICA POR CONTA DE DENÚNCIAS QUE VOCÊ TENHA PUBLICADO?

BRUNO ALMEIDA – Não. No começo teve um fotógrafo que trabalha para a Prefeitura e para a Câmara, o Marcelo Dias, que é meu amigo mas fez uma piada de uma forma bem sarcástica: “o mangue, cuidado pra não morrer afogado, hem”. Isso me soou estranho porque a gente mal se conhecia, então deduzi que se tratava de coisas que ele devia ter ouvido nos bastidores do poder. Mas hoje em dia eu quero crer que as pessoas já conhecem o meu profissionalismo. O jornalismo não julga ninguém, quem julga é a justiça. Não tenho nada pessoal contra ninguém. Nós apenas informamos sobre os fatos. Eu espero que todos entendam jornalismo como o meio pelo qual o direito constitucional de receber e de publicar informações é exercido. Mas é claro que eu sei que tem muita gente covarde em Magé. Mas não temo a covardia não.

O MANGUE – AQUI JÁ ASSASSSINARAM UM JORNALISTA, E PELO QUE A GENTE SABE O MOTIVO TEVE SIM A VER COM REPORTAGENS.

BRUNO ALMEIDA – É verdade, mais um caso de crime político sem solução nessa cidade.

O MANGUE – ALGUMA INIMIZADE POR CAUSA DE REPORTAGENS?

BRUNO ALMEIDA – Da minha parte não. Eu prezo mais pelas amizades, são muitas as que a profissão me deu. Mas teve esse senhor Almir Teixeira, secretário de Ordem Pública, que reuniu a Guarda juntamente com a secretária de Administração Sandra da Silva, e me chamou de bandido, de marginal e de vagabundo, perante os guardas. Nem coragem pra me xingar dessa maneira na minha cara ele teve, na minha frente ele me trata super bem. Então eu não entendi o que eu fiz pra esse senhor. Pensei até em processar mas vou deixar isso pra lá, eu sou de paz. E teve a Sandra, né, que sempre pareceu tanto ser minha amiga, depois desse episódio da Guarda em que eu denunciei que ela pediu para eles tratarem uma denúncia de estupro dentro da base com “corporativismo”, ela simplesmente me excluiu do facebook.

O MANGUE – VOCÊ JÁ FOI PROCESSADO?

BRUNO ALMEIDA – Sim, por causa de uma denúncia de moradores do Minha Casa, Minha Vida, em Maurimárcia. Tinha um esquema de induzir moradores a depredar as casas pra processar a construtora. Esse que me processou foi apontado como participante desse esquema e também por estar junto com quem vendia os apartamentos que ainda não tinham sido entregues, o Ministério Público Federal investiga até hoje uma quadrilha. Mas ele na hora se enrolou todo, parece que ele se auto intitulava advogado e na hora esqueceu de se inscrever no processo, um troço assim. E pelo que eu soube agora a Sandra da Silva, que é secretária de Administração e presidente do Sindicato dos Servidores está me processando também porque eu publiquei que tem gente sem receber licença prêmio e ela recebeu mais de cento e vinte e mil de uma só vez. Vamos ver, ela estuda Direito.

O MANGUE – AGORA A CIDADE GANHOU UMA ASSOCIAÇÃO MAGEENSE DE IMPRENSA, A AMI. PORQUÊ VOCÊ NÃO FAZ PARTE?

BRUNO ALMEIDA – Olha só, já falei sobre isso tudo em discussões públicas aí na rede, o que aconteceu foi que me jogaram dentro de um grupo de zap chamado “nós somos a imprensa de Magé”. De cara eu não gostei porque o administrador já tinha me chamado de fracassado em uma discussão no facebook, eu só sei que eu saí do grupo e depois eles fizeram uma reunião onde foi montada a associação. Não me convidaram. E eu vejo que já tem muita divisão entre eles próprios, o cara se dizendo “segundo vice”, sendo que não existe esse negócio de “segundo vice” ali. O que existe foi que ele perdeu a cadeira mesmo e não quer admitir. Então eu até cogitaria participar, mas quero que eles primeiro venham a público responder ao Gustavo Luzório que falou que ali dentro tem partidarismo, que tem irmãozinhos que faltam com a ética. Palavras do Gustavo, a quem eu admiro, respeito, e esteve ali dentro da associação e já se desligou. Quer dizer, os caras tão começando muito mal. Eu acho que montar uma associação pra pedir coletiva de imprensa pra deputado federal ou pra quem quer que seja, não é o caminho. Porque eles se recusam a entrevistar o prefeito então? Porque se recusam a entrevistar o deputado estadual? Entrevista deve cada veículo fazer a sua. Mas uma associação como essa tem que existir é pra valorizar o profissional. O que a associação pode fazer por cada empreendedor ali representado, individualmente? Quais os benefícios que ela propõe? Eu vou ter uma estrutura de trabalho mínima se eu pagar minha anuidade? Vou ter convênio com plano de saúde? Vou ter um assessor jurídico a quem consultar no caso de enfrentar processos? Não? Então não quero, não sou obrigado. Pra quê eu preciso de uma carteirinha dessa? Pra não ser barrado nos lugares? Em quê ela pode me ajudar? A pegar verbinha de político? Assim eu não quero. Eu já tenho minha federação, meu sindicato, meu cadastro como editor de jornais no Ministério da Fazenda, não posso ser impedido de trabalhar. Já pra eles pode ser interessante. Mas na minha opinião, associação tem que funcionar como uma cooperativa, a gente tinha que fazer era uma Agência de Notícias onde todo mundo trabalhasse difundindo a informação e recebesse por isso, respeitando as linhas editoriais de cada um. Paralelamente a gente tem que ocupar assento nos conselhos municipais pra se discutir política pública, e lutar pela criação do Conselho Municipal da Comunicação Social. Isso sim eu acho que daria certo. A gente tem que pedir é mais transparência dos órgãos públicos, reivindicar que as leis sejam cumpridas pra todos. Eu estou avaliando se vou entrar. O presidente é muito meu amigo mas tem me ocultado coisas em relação à associação, pedi uma entrevista a ele e ele ainda não me deu, eu tô sentindo eles muito fechados, e outra coisa: já tive esse papo com ele e não senti que teria espaço pra esses tipos de demandas se por acaso eu vier a me associar. Então o que vou fazer ali? Mas o lance é que eu sou amigo de todo mundo ali e critico mesmo e eles sabem que sou assim. Eles me chamam, o Dudu Tarja Preta, o Paulo… o Paulo, hem, vou te contar. Eu votei nele pra vereador e acabei elegendo o Carlos Prata. Pô, mas agora, tem o seguinte: se eu cismar de não participar, e começar a ver que essa panelinha que eles fizeram tá impedindo ou mesmo dificultando o meu trabalho na cidade, se eu não conseguir entrevistar a alguém porque esse alguém “já deu entrevista para a AMI”, achando que a AMI representa toda a imprensa de Magé, eles vão ver só a sarna que eles vão arranjar pra se coçar. Vamos continuar amigos, mas amigos também brigam.

O MANGUE – ISSO TUDO VOCÊ ACHA QUE TEM A VER ALGUNS COM ALGUNS DE SEUS COLEGAS SE RECUSAREM A TE ENTREVISTAR QUANDO VOCÊ PEDIU?

BRUNO ALMEIDA – Ficaram com medo do que eu pudesse falar. Medo do que eu pudesse falar, é mole? Achando que eles têm qualquer responsabilidade sobre o que eu estou afirmando ou especulando. Daí você vai vendo a qualidade do que a gente tem por aí. Mas o caso é que eu sempre gostei de conversar sobre minha profissão. Uma vez eu usei uma página inteira da seção do leitor em um jornal que eu trabalhava, e o texto caiu como uma bomba na cidade, ele pode ser lido neste link, se me permite, a quem interessar, está aí: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=451494678307104&set=a.139667942823114.23400.100003397280006&type=3&theater. Falar e escrever sobre o que eu faço é uma forma que eu tenho de dar satisfação à sociedade sobre o meu trabalho, acho isso importantíssimo, e é um exercício pra mim. Jornalista entrevista pedreiro, professor, dona-de-casa, policial, traficante, mendigo, presidente,…e quem entrevista o jornalista? Ninguém se interessa em saber o que pensamos, acham que não temos o que falar? Só servimos pra publicar opinião dos outros, e a nossa fica aonde? Mas tem colega de profissão que não se valoriza a esse ponto, são muito comedidos, jornalistas que têm medo de criar polêmica, como querem cobrar transparência sem serem transparentes? Já eu posso ser criticado por tudo, e por isso mesmo tenho plena consciência de que devo justificar perante as pessoas cada linha que eu escrevo em uma matéria. O que a gente faz é muito sério, não dá pra brincar.

O MANGUE – VOCÊ GOSTA MUITO DE FALAR SOBRE POLÍTICA. JÁ PENSOU EM SE CANDIDATAR?

BRUNO ALMEIDA – Já pensei sim, mas desisto de pensar com a mesma facilidade. Talvez um dia como prefeito, quem sabe? Não, não, mamãe não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar. Mas é que meu interesse pela política não é o de um político profissional, ou de um líder. Meu interesse é natural, como cidadão. Meu pai é que veio candidato a vereador algumas vezes, mas eu acho que não tenho vocação pra esse tipo de coisa. Pra eu me candidatar, teria que mudar todo o sistema, sabe? Eu não me adapto a esse tipo de democracia representativa, hierarquizada, o meu governo seria marcado por uma democracia horizontalizada, participativa, onde tudo fosse feito às claras, através de referendos, de plebiscitos, de audiências públicas, e de prestação pública das contas. Claro que eu idealizo um município, eu acho que todo mundo que ama uma cidade e que gosta de ajudar as pessoas já pensou em se candidatar. Mas o papel que eu assumo é o de criticar, de sugerir ideias, de propor debates, e espero contribuir para o progresso da cidade com isso. Espero que os políticos de quem eu falo tenham hombridade para lidar com isso. Porque é isso que se espera de um jornalista, eu não vou mudar, essa é a nossa maneira de fazer com que os problemas sejam resolvidos. E digo mais, se um por cento dos problemas que apontamos forem resolvidos, já vai estar bom demais.

O MANGUE – SOBRE ESSA VIOLÊNCIA QUE A GENTE VÊ SE ALASTRANDO EM MAGÉ ULTIMAMENTE, VOCÊ ACHA QUE É ALGO SEM VOLTA?

BRUNO ALMEIDA – A gente imaginava que fosse uma coisa que iria demorar a chegar aqui, mas acabou sendo acelerada com a ocupação das favelas pelas UPPs. O Cabral democratizou a violência dos morros para todo o estado. A bandidagem veio, gostou, e agora estão consolidando o negócio deles. Eu sou a favor da legalização das drogas mas ao mesmo tempo penso: se os traficantes não puderem mais traficar, o que eles vão fazer? Arrumar um emprego? Acho difícil. Eles vão continuar praticando crimes, vão roubar, vão sequestrar, vão assaltar, vão procurar outra coisa pra contrabandear, daqui a pouco tá o mesmo inferno. Mas eu acho que solução sempre existe, e ela começa se investindo em Educação, mas Educação mesmo, de qualidade. Nem sempre dar mais dinheiro à Educação redunda em uma melhor Educação, se o dinheiro não for bem administrado. Às vezes pequenos projetos, mas que tenham continuidade e abranjam de fato as pessoas, são muito mais eficazes. Eu falo sobre uma Educação que se mostre mais atrativa para o jovem do que o tráfico, entendeu? Uma Educação que leve em conta os gostos e dons pessoais de cada aluno. Quer ver uma coisa? É tão fácil criticar a evangelização que os religiosos fazem dentro das comunidades, mas ninguém quer ir lá no lugar deles ofertar Educação, ofertar Cultura, ofertar Emprego,…E quando eu digo comunidade, não digo lá no morro do Rio de Janeiro, não, digo as nossas. Cadê os cursos profissionalizantes? Cadê as opções de lazer? E a outra vertente é a prevenção. Magé possui um ônibus cedido pelo Governo Federal através do programa Crack – É Possível Vencer, que está se estragando em algum desses pátios da Prefeitura, há mais de ano. O ônibus possui mais de dez câmeras de monitoramento, cada uma com alcance de mais de um quilômetro de distância. Colocá-lo pra funcionar ajudaria bastante, não é mesmo? Você vê, cadê meus amigos de profissão pra me ajudar a divulgar essas coisas? Eu tô cansado de denunciar isso. Mas tem jornalista em Magé que nunca, eu disse nunca, criticou um político na vida.

O MANGUE – VOCÊ CONCORDOU COM O CANCELAMENTO DO CARNAVAL, SOB ALEGAÇÃO DE PREOCUPAÇÃO COM A SEGURANÇA?

BRUNO ALMEIDA – De forma nenhuma, ridículo. O prefeito agiu com a velha lógica da incompetência: se você não consegue ou não quer administrar alguma coisa, acaba-se logo com essa coisa e está tudo certo. Proibiu bloco de sair, pô. Aí ainda pega e vai tirar onda na Barra pra todo mundo ver, qual é a dele? Se ele estivesse mesmo preocupado com a Segurança, deveria estar abrindo um concurso para contratar mais guardas, deveria estar pagando corretamente o convênio que o município tem com a Polícia Militar, enfim…Parece que agora estão falando em concurso pra guarda e pra fiscal de postura. Será que é só isso que dá pra fazer mesmo em termos de concurso? Será que vai sair? Vamos aguardar.

O MANGUE – VOCÊ CONHECE BEM O ATUAL PREFEITO RAFAEL TUBARÃO? O QUE VOCÊ ACHA DA ADMINISTRAÇÃO DELE?

BRUNO ALMEIDA – Não, não conheço ele bem não. Sei que é maneiro com a rapaziada e tal, mas não é isso que faz um prefeito. As críticas que eu fazia ao Nestor e agora a ele, são em relação a gestão deles. E a gente vê que eles tão perdidos né? A vaia que o Tubarão recebeu no show da Alcione diz tudo. Tá ele, tá o Miguelzinho, tá muito perdido e o povo tá pagando o pato. Eles estão cometendo os mesmos erros dos outros, e até erros piores. Mas sabe o que acontece, eu vou te dizer, tem um grupo ali no Palácio que guerreia entre si por pura vaidade, isso nunca acaba legal. Olha, o município está numa ilegalidade absoluta em relação à Saúde, porque ainda está em vigor uma emenda da Lei Orgânica, de 2005, que obriga a todo secretário de Saúde ser médico. E agora quem ele botou pra ser secretária de Saúde? Uma senhora que não é médica, e agora um senhor que não é médico e que por acaso é ou foi sócio de clínica particular de saúde, e ainda por cima comanda o Governo, comanda a Fazenda, poxa vida,…esses caras eram vereadores, eram pra entender de lei como ninguém, e como se prestam a um papel desses? Eu também acho que essa lei de 2005 é ridícula, ela não deveria existir. Mas ela existe, então eles primeiro deveriam se empenhar em mudá-la, agora o que acontece é que eles estão na ilegalidade, nenhum ato da secretária Stela Mary nem do Miguel da Climamp tem valor com essa lei ainda em vigor, isso é um absurdo, é algo muito grave, é algo que afeta também a outros governos, aliás. Eu acho que falta planejamento em tudo, e é a partir daí que você vê faltar a coleta do lixo, faltar o médico, faltar o remédio, faltar a merenda, eles tiram os ônibus a hora que querem da rodoviária e botam aonde eles querem e não dão satisfação prévia pra sociedade sobre aonde está o trânsito, a comunicação institucional, desculpa falar, mas tá horrível, tem uma resolução federal que acaba com todos os lixões do Brasil e o governo municipal foi e reabriu o de Bongaba,… São contratos superfaturados pra locação de máquinas, pra obras, são contratados da Saúde que aparecem em planilhas como se tivessem sido pagos mas os empresários afirmam que não receberam nada, enfim…é nepotismo, é favorecimento, é perseguição pra quem não reza a cartilha, é admissão e demissão em época eleitoral,…Parece que a administração Tubarão se comprometeu com muita gente pra poder governar e a gente só pode imaginar que nosso dinheiro está sendo gasto pra pagar a esses acordos. Ou alguém acredita mesmo em calamidade financeira? Poxa, reclama dos royalties, mas quando eles vieram ano passado foram pra pagar o show do Vitor e Leo. E os vereadores, principalmente os reeleitos, que continuam exercendo uma influência anormal dentro do Executivo? Teve o Plano Diretor, que depois de toda aquela participação popular, veio o Executivo e o Legislativo e mudaram tudo, isso deveria dar cadeia. Já estamos na metade do ano e até agora não vimos nenhum movimento pra discutir o orçamento participativo que ele prometeu implantar no município. Daí vem dizer, “ah, mas essas coisas acontecem em toda cidade”. Não sei não, hem. Lá até pode acontecer, mas aqui não, porque eu moro aqui, e nós somos mais velhos e temos que dar exemplo. Não podemos nivelar por baixo nem nos acomodar nunca.

O MANGUE – NENHUM PONTO POSITIVO?

BRUNO ALMEIDA – Eu iria citar o transporte gratuito para os universitários, só que os estudantes foram surpreendidos ao serem informados de que para receberem o benefício têm que comprovar que possuem baixa renda. Isso não foi falado na campanha, e nem sei se consta no decreto, tenho que ver. Vou citar como ponto positivo o pré-vestibular municipal, mas o projeto tem que chegar a todo o município, e não ficar só aqui no primeiro distrito. E posso dizer que fiquei feliz com a indicação do Wagner Rosa para a pasta de Esporte, Lazer e Turismo. Apesar de pessoas insinuarem que ele não deveria aceitar o cargo já que ele é fiscal do TRE e porque ele é policial lotado na cidade, eu tenho ele como um sujeito íntegro. Só resta saber se ele terá autonomia mesmo pra trabalhar. O Wagner foi exonerado do governo Nestor Vidal, da Segurança Pública, logo após me dar uma entrevista. Vou pegar leve com ele dessa vez.

O MANGUE – ESSA PASTA QUE VOCÊ SE REFERIU, A DE TURISMO,…ERA DA “TODA PODEROSA” ALISON BRANDÃO, QUE TAMBÉM É SECRETÁRIA DE EDUCAÇÃO E CULTURA E AINDA PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO CULTURAL E EDUCACIONAL DE MAGÉ. O QUE SERÁ QUE HOUVE?

BRUNO ALMEIDA – Não sei, talvez estivesse faltando tempo pra ela coordenar isso tudo, né. Mas no meu entendimento ela não pode ser presidente dessa Fundação, uma vez que se trata de uma autarquia, ou seja, um órgão independente, não pode ter vínculo com o Poder Municipal. Que dirá ter como presidente a mesma pessoa que é secretária municipal de Educação e de Cultura. Muito poder pra uma pessoa nunca é bom. Tem muita gente boa, apta a exercer essa função. Se uma pessoa lidera tudo, não há contraponto. Cadê a participação da sociedade no Conselho de Educação? Nisso aí eu mesmo me cobro, porque também nunca fui. Mas quero começar a ir. E outro ponto comum, infelizmente, deste governo: tem gente com duas, três secretarias, e ainda por cima não é especializado em nenhuma, quem faz essas nomeações não pode tá falando sério.

O MANGUE – LÁ ACIMA VOCÊ DISSE QUE NÃO CONHECE BEM O PREFEITO, MAS VOCÊ FREQUENTAVA MUITO A CÂMARA NA GESTÃO DELE ENQUANTO PRESIDENTE. AS PESSOAS ASSOCIAVAM MUITO A SUA FIGURA COM A DELE NAQUELA ÉPOCA…

BRUNO ALMEIDA – A minha figura com a dele? Tá doidão? Essa foi boa. Não, ele me cumprimentava lá na Câmara, como ele faz com todo mundo. E me concedeu uma entrevista certa vez. Mas nunca me convidou pra participar daqueles banquetes que eles têm lá dentro da sala da presidência, isso aí é coisa só pra eles, entendeu? Me convidou sim pra uma vaga na assessoria de comunicação, mas isso tudo através de outras pessoas, botou outras pessoas pra intermediar, e a conversa não foi adiante. Até o agradeci, mandei um projeto pra ele e uma carta, mas não tive retorno. E diga-se de passagem que eles enquanto ainda estavam na Câmara, se beneficiaram muito com umas denúncias que eu publiquei contra o Nestor Vidal na época em que eles estavam realizando as CEIs. Fui eu por exemplo que descobri que a empresa de reboque funcionava em um endereço de uma loja de mármores em Del Castilho. Mas o jornalista preferido do Tubarão sempre foi o Toninho do Magé On Line, que estava até cotado aí pra ser o assessor de comunicação da Prefeitura novamente. Aliás, aquele contrato que o Toninho tem na Câmara, firmado na gestão do Tubarão pra transmitir as sessões, é uma incógnita. Eu mesmo tenho dois protocolos lá pra saber esses valores, há mais de um ano. Nunca me responderam a esses protocolos. O Procurador da Câmara era o que foi secretário de Meio Ambiente, Fabrício Gaspar. Ele me emitiu respostas a protocolos feitos depois desses, mas quanto a esses nunca me responderam. Isso cabe denúncia porque infligiram a Lei de Acesso à Informação. Ainda na época das CEIs eles ficaram tão esbaforidos que nem deram bola pra uma denúncia que eu levei pra lá, contra a Secretaria de Governo que tinha aberto licitação de dois milhões e meio pro ano de 2016, pra assessoria jornalística e usando tabela de publicitários pra fazer capa de caderno. A Câmara reconheceu o fundamento da denúncia mas o diretor, que é o João, o procurador, e o próprio Tubarão me aconselharam procurar o Ministério Público, não levaram adiante. Mas o jornalista preferido do Tubarão é o Vinícius Deizão, do jornal Impacto.

O MANGUE – SOBRE A MORTE DO VEREADOR GERALDÃO, VOCÊ ACOMPANHOU DESDE QUANDO ACONTECEU O FATO. TEM ALGO NOVO?

BRUNO ALMEIDA – O delegado responsável pelo caso, Geniton Lages, sempre me dizia que estavam perto da elucidação, mas recentemente eu conversei com a viúva do Geraldo, e ela me disse que oficialmente decretaram o fim das investigações, alegando que a Polícia Civil não tem mais condição financeira de continuar. Um absurdo, né. Tem alguns dados curiosos nesse caso: pra começar, a câmera não pegou imagem nenhuma mesmo? O Geraldão emprestava dinheiro a juros, e levaram noventa mil reais que estavam no porta-malas do carro dele na hora do assassinato, ou logo depois, não ficou claro o momento exato. Mas essa grana que ele emprestava não era dele, era de outras pessoas. Essas pessoas chegaram nas pessoas que estavam devendo a ele e segundo o que a gente sabe o pagamento foi feito. Tudo de boa, beleza, tudo certinho, sem furo, ninguém deu calote. Outra coisa, na noite do acontecido, eu e outros jornalistas do SBT e da BAND que estávamos no local, descobrimos uma cadeira de escola colocada rente ao muro nos fundos da Câmara, bem em direção aonde o corpo dele foi encontrado. A gente nem cogitou isso na hora, mas provavelmente o assassino a usou pra pular o muro. Nós subimos na cadeira pra fazer as imagens do corpo dele. Mas alguém que estava no pátio viu nossos vultos e pediu pra uma viatura da PM vir até a gente, e os policiais mandaram a gente sair dali. E no final de tudo, na hora de ir embora já de madrugada eu voltei lá pra fazer uma foto da cadeira, e pra minha surpresa ela não se encontrava mais. Na certa os próprios policiais a tiraram pra gente não subir de novo, mas ela poderia ser útil pra se conseguir alguma pista, como uma impressão digital, talvez. É triste um crime como esse não ser solucionado. Assim como também não foi solucionada a morte do menino Matheus, por um tiro na cabeça, naquela operação da PM na Lagoa.

O MANGUE – COMO VOCÊ AVALIA A ATUAÇÃO DOS DEPUTADOS MAGEENSES, ZÉ AUGUSTO NALIN E RENATO COZZOLINO?

BRUNO ALMEIDA – É o tal negócio que eu falo. Completamente comprometidos com o sistema, estão tendo que fazer esse jogo dos partidos, tudo que a gente sabe, não tem jeito, não é surpresa pra ninguém. Mas isso não é de todo ruim se eles conseguirem, em troca, trazer algo produtivo pra gente aqui enquanto cidade. E isso é uma coisa que eu não vejo. Ah, tem alguém no Detran? Sim, mas a gente precisa que o serviço seja melhorado. Precisa de um espaço maior pra não provocar essas filas duplas na Simão da Motta. Precisa de menos gente pedindo dinheiro ali dentro. Vamos falar do Nalin: É notório que as obras da duplicação da BR recomeçaram devido a insistência dele lá com o ministro, com o Dnit, e tudo mais, ou então houve uma tremenda de uma coincidência, pois foi logo que ele começou a insistir que o negócio andou. Mas não partiu dele a iniciativa de pedir à Comissão a fiscalização sobre esse nosso trecho. Por quê? Porque teve que partir de outro? Tá, mas ele tá brigando pra que tenhamos apenas uma praça de pedágio. Se ele conseguir, o pessoal esquece logo que ele foi um dos que ajudou a aprovar esse pacote de maldades do Temer aí,…..Aliás, ele agora não é mais quinto suplente, o risco de ele sair novamente é zero. Isso dá mais poder de barganha, e Magé precisa de mais agências da Caixa Econômica Federal, precisa de faculdade, precisa de tanta coisa,…Já o Renato, ele votou contra a transparência do FUNDEB, e votou a favor da privatização da CEDAE enquanto têm pessoas que garantem que já estava tudo certo pra ele votar contra. Não sabemos o que houve naquele episódio. Mas daqui a pouco ele consegue trazer alguma coisa legal pra cá e pode ser reeleito. Conseguiu incluir Magé como município de interesse turístico, o que já era pra existir a muito tempo. Eu acho que tanto ele quanto o Nalin podem ser reeleitos. Mas eles sabem que vão ter que ralar muito.

O MANGUE – ALÉM DA NÚBIA, VOCÊ JÁ PRESTOU ALGUM TIPO DE ASSESSORIA PARA POLÍTICOS AQUI NA CIDADE? FARIA ESSE TIPO DE SERVIÇO?

BRUNO ALMEIDA – Claro que faria, sou profissional da Comunicação, são pessoas como eu que têm mesmo que ser chamadas pra integrar essas equipes. Na verdade eu já atuei com o Zé Augusto Nalin assim que ele assumiu pela primeira vez. Fiquei três meses fazendo os textos pro facebook e pro site dele.

O MANGUE – ALGUMA MATÉRIA QUE TENHA TE MARCADO MAIS AO LONGO DE TODO ESSE TEMPO?

BRUNO ALMEIDA – Muitas, todas são especiais. São as filhas que eu ainda não tive. Aquela em que fotografei funcionários supostamente retirando documentos da Prefeitura às dez horas da noite. Eu estava com um encontro marcado para o dia seguinte na Prefeitura para pegar uma vaga na assessoria de comunicação como fotógrafo, já estava tudo certo, eu ia ficar no lugar do Ailton que tinha falecido. Mas quando o Nestor viu a matéria não só cortou minha onda como ficou um tempão sem falar comigo. Filhas às vezes dão dor de cabeça, né? Já na Folha da Manhã eu entrevistava uns quinze moradores de uma só vez, eles faziam um protesto na rua porque a prefeita de Campos, Rosinha Garotinho, ia despejar eles das casas deles. Nesse exato momento passa um fusca a toda velocidade e bate numa árvore. Tinha uma moça no carona com um bebê de colo. E fomos socorrer, foi horrível, muito sangue, o motorista notoriamente embriagado queria fugir do local, as pessoas começando a reclamar que já pedem um sinal ali no trânsito há muito tempo,…e no meio disso tudo eu ligo pro jornal pra pedir que eles entrassem em contato com uma ambulância e com a polícia, e que também publicassem no site a notícia do acidente. Foi um deus nos acuda na redação, era um sábado e quem estava de plantão não quis me ajudar, ficaram me enrolando, e eu acabei mandando três editores tomar em algum lugar aí qualquer, por telefone, de uma só vez. Fiquei desempregado na hora.

O MANGUE – UM JORNALISTA DEVE REUNIR QUAIS QUALIDADES?

BRUNO ALMEIDA – Um bom jornalista é um bom observador, tem que saber ouvir, tem que buscar detalhes. E você também tem que falar a língua que seu público entenda, senão não há comunicação. Outra coisa, você não pode entrar numa matéria cheio de preconceitos achando que já sabe de tudo, porque senão você se estrepa. Se você soubesse de tudo não precisava você fuçar, perguntar, não é mesmo? Tem que manter uma certa ingenuidade perante os fatos pra poder arrancar o máximo deles, entendeu? E tem que amar a justiça social, você é a voz dos injustiçados, dos humilhados, dos esquecidos, essas pessoas veem até você querendo ajuda, porque confiam em você, e claro, você tem que ter coragem pra tocar tudo isso. Eu pelo menos vejo o jornalismo como uma arma social muito poderosa. Tudo bem que tem bons jornalistas na área da fofoca, que vão preferir falar da vida sexual das celebridades, mas até esses têm que ter um senso de dignidade humana muito bem definido na cabeça deles. Mas o básico mesmo é você buscar sua formação acadêmica, se você gosta de algo e quer trabalhar com isso, você tem que estudar, você tem que conquistar a técnica e compreender a ética necessária pra isso. E se for trabalhar pra alguém, tem que brigar pela sua matéria, o profissional é você, nunca faça algo que você não concorda. E ainda sobre a formação acadêmica: não interessa se o ministro Gilmar Mendes decretou que pra ser jornalista não precisa diploma. A obrigatoriedade do diploma vai voltar e quem não estuda vai ficar pra trás. Eu faço parte do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado e da Federação Nacional de Jornalistas. São instituições que querem a volta da obrigatoriedade do diploma e vamos conseguir.

O MANGUE – PROJETOS FUTUROS?

BRUNO ALMEIDA – Pretendo escrever um livro que misture ficção e realidade, no qual eu vou poder narrar com detalhes muitas aventuras vividas por um jornalista pobre em cima de uma bicicleta em suas missões por várias cidades de um estado qualquer do Brasil. Também penso em ministrar cursos de jornalismo na cidade, eu quero incutir a cultura do jornalismo aqui, eu vejo que as pessoas têm interesse sobre isso mas falta informação. E o município precisa disso. Certa vez no Colégio Estadual, nós que fazíamos parte da Rádio Comunitária Na Onda, ministramos uma oficina de como montar uma Rádio Escola, e já tava tudo pronto, só faltava a diretora comprar os fios para as caixas de som que iam ficar no pátio. Os programas dos alunos iriam ao ar na hora do recreio. Mas aí a diretora mudou de ideia rapidinho porque viu que o trabalho iria ficar a cargo do Grêmio Estudantil, você se lembra disso? Mas o projeto é mais ou menos esse, se alguém quiser patrocinar, nós podemos conversar.

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