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Carlinhos da Amchal, “Um Aporrinhador pela Legalidade”, denuncia mais uma vez as Pedras Rolando em Santo Aleixo

Carlinhos da Amchal (de azul) com o prefeito Rafael Tubarão (então presidente da Câmara) e com o vereador Carlinhos da Ambulância, em visita aos pontos críticos, em 2015

As chuvas da semana passada em Santo Aleixo suscitaram questões como o risco iminente do deslizamento de pedras e encostas na região, motivo de amplas denúncias protocoladas pelo grupo Aaipsto – Abaixo Assinado Popular de Santo Aleixo, cujo um dos mentores é Antonio Carlos Guimarães Soares, o Carlinhos, presidente da Associação de Moradores do Chalé (Amchal).

Carlinhos da Amchal se define um ‘aporrinhador’, mas daqueles que primam pela legalidade. Com isso, já comprou e ganhou brigas com a Cedae, por exemplo, sendo o principal responsável para que a população de Santo Aleixo não pague água à estatal, e sim usufrua da própria água. Ontem à noite ele cedeu um pouco de sua característica atenção à reportagem, por telefone. E o assunto girou em torno de uma luta travada há muitos anos.

O MANGUE – Como começou o movimento Aaipsto?

CARLINHOS – Criamos processos em cima de processos contra a Prefeitura sobre a questão dos desabamentos. Em meio a um desses processos que tramita no Ministério Público de Magé, formou-se a Aaipsto, com cinco mil e poucas assinaturas. Sendo que entre essas, tem três mil e poucas que estão com características oficiais, CPF, Identidade, tudo. Eu já era presidente da Amchal, e fui procurado pelo casal Regina Penha e Hélio Rebecchi, que já possuíam dossiês superfundamentados sobre o perigo das encostas. Então nós fomos à Tutela Coletiva do Meio-Ambiente, em Itaboraí, a Quinta Região Administrativa. No documento que levamos havia a descrição das verbas dadas pelo Governo Federal para as obras de encosta, uns oito centímetros de documentos e fotos. O promotor disse que não tinha conhecimento da situação, e mandou que protocolasse.

O MANGUE – Se foi aceita a denúncia, porque nada aconteceu até agora?

CARLINHOS – Essa sua pergunta é a mesma que eu me faço até agora. Existem denúncias muito mais antigas, coisa de doze, treze anos, e nada acontece. O MP é muito moroso, sobretudo quando se chama pra uma ação mais contundente. Quer ver uma coisa? Eu pedi ao promotor que nos reuníssemos eu e minha associação, a promotoria, e o prefeito Nestor Vidal com sua equipe. Ele disse pra mim que não poderiam fazer isso, porque teriam que ter subsídios bem palpáveis para imprensar o prefeito. Então teria que ter um critério base de engenharia do Ministério Público. Mas ele também não criou caminho, só botou dificuldade. Enquanto isso, sempre, sempre, sempre despenca pedras, por exemplo ali na Santa. Em dezembro correram umas três pedras lá de cima, na casa de cinquenta, sessenta, setenta quilos. E alguém vai ali, mandado, e acaba tirando as pedras.

O MANGUE – Quem? Prefeitura?

CARLINHOS – Não tenho nem certeza se é a Prefeitura. Já me disseram que quem é tem condição de fazer isso. Condição esta, que pode-se dizer que nem é condição, mas eles podem ir lá e tranquilamente retirar as pedras. Mas a gente tira fotos e envia ao MP. O Ministério Público, no nome do promotor Carlos, é conhecedor de todas essas circunstâncias.

O MANGUE – Já houve acidente sério, a ponto de alguém perder vida?

CARLINHOS – Não. Rapaz, aqui verdadeiramente é Santo Aleixo. Caiu uma pedra na Santa, quebrou a Santa e não matou ninguém. Tinha um monte de gente por ali, como você sabe é um ponto de visitação, mas eles não estavam embaixo de onde as pedras correram. Aqui em Andorinhas desce barreira direto, e graças a Deus nunca aconteceu nada de muito grave.

O MANGUE – A quais obras com verba federal o senhor se referiu exatamente lá em cima? Isso foi no Governo Nestor Vidal?

CARLINHOS – Sim. Dizem que veio nove milhões para fazer a encosta em Vila Inhomirim, Guia de Pacobaíba, e Santo Aleixo. Em Vila Inhomirim foi feita, em Guia não sei dizer. Mas nós aqui não fomos agraciados, não fizemos parte de nada desse projeto, não vimos esse dinheiro aqui. É o seguinte, cria-se um projeto, qualificado, e manda para o Governo Federal. Ele só manda a verba se você tiver a presteza, o descritivo da obra, se for perfeito. Aí o Governo vai acreditar que aquilo é realmente necessário. Nós somos o único caso em que precisamos entrar com processo, e o processo se arrasta. E ninguém pode negar que aqui existem essas coisas horríveis que podem danificar a vida humana.

O MANGUE – A pedra da curva do Chalé com certeza estaria nessa obra.

Carlinhos – Com certeza.

O MANGUE – Vocês tiveram a oportunidade de sentar com a Prefeitura para ver o que estava havendo?

CARLINHOS – Esse processo sobre essa pedra tramita já há uns onze anos. Com Nestor, apareceu aqui a Pangeia, que é uma empresa de engenharia, especializada em estruturas voltadas pra esse tipo de solo, é uma empresa de São Paulo. Chegando aqui, o engenheiro não nos chamou pra conhecer nada. Eu acho que ele viu de baixo. E fomos a uma reunião, na época era o Paulo Vaz o secretário de Habitação e Urbanismo. Deu uma confusão. Porque o cara acha que você pode ser enrolado. Sabe o que ele queria fazer? A estrada ali da curva do Chalé tem uns sete metros mais ou menos, é um ponto crítico. E ele quis fazer um ‘muro de espera’ no meio da rua, só passando carro ‘de para e siga’. Isso é inviável, não era pra ser proposto, isso seria fechar definitivamente.

O MANGUE – E qual seria a solução?

CARLINHOS – Criar uma tela aramada, como é na serra de Teresópolis. A aramada pode, porque ela segura, eles botam um fincão para dentro da pedreira, porque ali é uma pedra moledo, é uma pedra de fácil demolição, fácil remoção,…e em cima tem uma fenda com dois metros de largura que bebe água e desce cá embaixo. Eu perguntei ao cara da Pangeia se ele é louco. Perguntei a ele de onde ele era e ele disse de São Paulo. Eu falei: só podia, logo vi que você não conhece nada daqui. Aqui passam seis linhas de ônibus, aqui é único acesso. E eu disse que de antemão nós não aceitamos esse trabalho seu. E fiquei aporrinhando o Paulo Vaz pra ele me dar o projeto, foi uma confusão. Até que me deram um CD com todas as características de obra. A obra deixaria apenas quatro metros de rua. E outra coisa, eu tenho o laudo daquilo ali, feito pelo Emop – Empresa de Obras Públicas do Estado, e pela equipe de engenharia da Prefeitura de Duque de Caxias, que gentilmente cedeu os profissionais pra uma avaliação. Eles disseram que é fácil resolver o problema, basta botar esse morro perpendicular bem suave, e joga um pouco de dinamite com pólvora preta, que se usa nas pedreiras,…mas nunca fizeram nada.

O MANGUE – O senhor sabe dizer se nos demais lugares aonde a verba chegou, a empresa também foi a Pangeia?

CARLINHOS – Que eu saiba a Pangeia foi só aqui.

O MANGUE – A equipe de vocês conta com profissionais técnicos para avaliar e emitir parecer?

CARLINHOS – Nós só trabalhamos in loco, e com registros de imagens. Existe um parecer extra-documento assinado pelo geólogo Wilson Pinto, ele é aposentado do serviço de Geologia do estado do Espírito Santo, e fez pra nós de forma voluntária esse laudo. Isso está anexado e foi entendido como legal.

O MANGUE – O senhor ouviu dizer do interesse do deputado federal José Augusto Nalin, no período em que assumiu como suplente, em se informar sobre essas situações e tentar recuperar essas verbas?

CARLINHOS – Não. Eu não ouvi nada disso. Muitas coisas são crendices. Muito dessas coisas evoluem somente no ‘vamos fazer’, mas isso se perde no tempo. Você vai sempre ouvir a administração pública dizer ‘vamos fazer’.

O MANGUE – No final de 2014 o grupo se reuniu com o ainda presidente da Câmara, Rafael Tubarão, no gabinete dele, e ele prometeu ajuda quanto ao caso. De fato, dias depois, ele e outros vereadores estiveram aí vendo de perto a situação. O que ficou decidido à época? Chegaram a fazer alguma coisa?

CARLINHOS – Nós mostramos esses problemas. Só que a única coisa que fizeram com isso tudo foi uma melhora nas pontes, uma maquiagem. Foram cinco pontes, revestiram, e amenizou o problema. Mas, nas áreas de risco, nada foi feito. Nós vamos esperar agora o prefeito vir aqui com o pessoal dele. Eu fui na Posse dele, no mandato tampão. Procurei, falei que seria bom que ele viesse aqui, ele me pediu pra agendar pro dia que eu quiser. Ele recebe a associação muito bem. O fato é que todas as nossas reivindicações são para o interesse público, e isso nos traz uma verdade e uma legalidade que nos respalda.

O MANGUE – Existe política pública municipal para moradores em área de risco em Magé?

CARLINHOS – A maior área de risco aqui é no Sertão. Mas se falar em tirar o povo dali, eles mesmo não querem. E por sua vez , eles têm r a z ã o. Porque o Governo, em todas as esferas, diz que vai tirar o fulano, que vai apropriar alguma coisa para moradia. Só que não faz, então o povo tem medo de sair.

O MANGUE – Nos levantamentos de vocês, vocês calculam quantas pessoas estão expostas a esses perigos?

CARLINHOS – Na curva do Chalé tem umas três ou quatro casas embaixo e umas cinco em cima. Na Santa é área de passagem de pedestres e veículos. Não tem moradia em cima, mas tem umas três ao lado. E se escorrer, pode encher o rio, encher de entulho, enfim. E o do ponto perto ao Colégio Primeiro de Maio é também um perigo, porque é área principal de ônibus, todos os coletivos para Niterói, todos para o Rio, Magé, Piabetá, e dois ônibus que pegam pessoas para trabalho. E na Serra Pelada, Sertão, é complicado. Acredito que tenha umas duzentas casa ali.

O MANGUE –  O senhor tem bom contato com a Defesa Civil? Qual a postura deles em relação à situação?

CARLINHOS – Tenho. É uma equipe excelente, competente, de bom trato, estão vinte e quatro horas agora, mas o que acontece: tudo depende do Executivo. Sem isso, os estudos, as análises, tudo fica pra trás. É o que acontece infelizmente em muitos lugares. Veja aí o Morro do Bumba em Niterói, as pessoas já estão voltando a morar lá. Veja Teresópolis, tem processos administrativos ali violentos pela omissão. Então, sem o interesse e a ação de quem tem a caneta, não adianta a Amchal ficar mandando ofício.

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