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CMPCM DISCUTE O “FUTURO DAS BANDAS DE MÚSICA DE MAGÉ”

“O Futuro das Bandas de Música de Magé” foi a pauta do segundo Encontro Temático do Conselho Municipal de Política Cultural de Magé (CMPCM), realizado no último dia 30 em sua sede. Presentes, alguns dos “herdeiros” de uma arte tradicional que por aqui revelou mestres como Franklin de Carvalho Júnior, patrono dos músicos do Exército Brasileiro; e que hoje, apesar de continuar tocando o sentimento das pessoas, parece perder espaço para o “comércio do entretenimento” aliado a não-valorização do poder público. Pra se ter uma ideia, uma das bandas mais emblemáticas, a do Colégio Estadual de Magé, praticamente deu por encerrada suas atividades, estando seus instrumentos, avaliados em cerca de R$ 80 mil, parados.

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— O prefeito sempre que me encontrava, pedia para eu fazer um projeto para reativar a banda do Grêmio. Da última vez eu perdi a paciência e falei que ia fazer um projeto em forma de outdoor, pois todos os que eu fiz se perderam nos gavetões da Prefeitura — comentou Alfredo Brandão, presidente do Grêmio Musical Mageense e secretário do CMPCM.

Grêmio Musical Mageense

Na verdade, Brandão enxerga o problema de longe, e de forma mais abrangente:

— Com a fusão do estado do Rio de Janeiro com o antigo estado da Guanabara, nós deixamos de ter uma federação de bandas forte e uma politica de estado que as fomentasse. Talvez o Rio seja o único estado que não tenha política para as bandas de música. A verdade é que o estado optou já há muito tempo pelo bom, bonito e barato. É mais fácil distribuir 80 peças de percussão para crianças tocando funk, do que gastar num instrumento de música que é mais caro e exige contratação de professores para ensinar. Hoje em dia não temos um concurso em que tenha banda de música.

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Alfredo Brandão não citou no encontro, mas tem conversado com a secretária de Educação Angela Lomeu sobre a possibilidade de parceria com o Grêmio Musical Mageense, no que tange ao ensino de música, instrumentação específica e formação de grupos e corais

“Secretaria de Educação não quer mais a Cultura”

José Antônio Seixas, presidente do CMPCM, entende a situação como parte de um contexto de sufocamento de expressões culturais e populares (como o próprio carnaval), e aponta caminhos:

— É difícil a prefeitura entender a necessidade de se fazer um calendário, uma agenda cultural. Em Cachoeira de Macacu tem agenda cultural mensal. E é uma coisa incrível. Se eles são um município muito mais pobre, do ponto de vista econômico, mais rural, e conseguem, como nós aqui não conseguimos? Não é falta de verba, pois manter uma agenda não custa quase nada. O que custa é a estrutura. E vai ver a estrutura que oferecem. Tem licitação? Quando tem o valor é astronômico. Eles não têm uma secretaria responsável por montar e desmontar essa estrutura. Dou como exemplo a feira de artesanato: os artesãos pagam para montar e desmontar a feira e a prefeitura não tem onde guardar material. A Secretaria de Educação não quer mais ficar responsável pela Cultura, vai entregar tudo para a Fundação Cultural. O problema é que a Fundação tem somente cinco funcionários.

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Seixas: “prefeitura não tem calendário cultural”

Sociedade Musical Santa Cecília

A Sociedade Musical Santa Cecília, entidade com 48 anos de existência, residente em Pau Grande, se fez presente através de seu presidente, Luis Carlos Leocornyl, ex-vereador por dois mandatos no município:

— O Renato Cozzolino quando foi prefeito passou o prédio da América Fabril para a Sociedade Musical Santa Cecília. Mas o problema é que o teto hoje tá caindo… temos que renovar o prédio e tomar cuidado com quem entra. A banda não tem recursos para comprar instrumentos, os consertos custam caro. Mas vou fazer o que posso e continuar fazendo o que posso. Não posso olhar pra banda Santa Cecília e ignorar as outras. Temos que nos unir, fortalecer nosso movimento.

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Leocornyl é primo do prefeito Nestor Vidal e disse que já o levou para ver o teto da sede da Santa Cecília, que está caindo. Segundo ele, o prefeito pediu para “fazer um projeto”

Orquestra Aquarius

Já quem acha que o futuro das bandas só estará garantido se não passar pelo crivo político, é o presidente e fundador da Orquestra Aquarius, Carlos Alberto Oliveira. Ele também é maestro da Banda da Guarda Municipal de Itaboraí:

— A Orquestra Aquarius tá funcionando mas também tem suas dificuldades de manutenção, de estrutura, músicos saindo pra trabalhar. Acho que a gente tem que buscar meios que não dependa da política, senão não vamos conseguir nada. Vamos continuar chorando. Como vamos fazer, eu não sei. Mas banda de música é uma coisa tradicional, não pode morrer — fala Oliveira, filho e neto de músico.

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O maestro Carlos Alberto Oliveira citou ao site O Mangue exemplos bem sucedidos de parceria entre bandas e prefeituras: Niterói e Itaguaí. Mas quanto a Magé, o músico não percebe vontade da administração política

Bandas de Escolas Municipais

Itaguaraci de Souza, o Guará, é professor de música na Secretaria de Educação, trabalha do ensino infantil ao ensino médio, e coordena as seis bandas das escolas municipais. Tem uma visão crítica ao ponto:

— Antes de qualquer projeto, temos que pensar nos nossos governantes. Quem vai estar lá? Quem é o cara? Eu não quero dinheiro pra comprar camisas pra minha orquestra, pra fazer festas, eu quero a verba que está destinada a essas crianças, que nós sabemos que tem. Temos muitos colégios em Magé que têm instrumentos mas não iniciaram suas atividades, ou já desistiram. Nossa maior dificuldade hoje são nossos instrutores: eles precisam de qualificação. Eles alegaram que não podem tocar o hino nacional e o hino de Magé porque não tem arranjo. Pedi que me mandassem o repertório deles e vieram coisas como ‘Gordinho Gostoso’. Não vejo problema em tocar funk, mas antes disso temos que conhecer Milton Nascimento, Pixinguinha, etc. Temos uma escola, a Evani da Silva Gago, que tem uma percussão toda de Escola de Samba. Como uma criança de 12 anos vai pegar um surdão daquele ‘treme-terra’?

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Guará e sua decepção com a Câmara Municipal: “aprovam leis ridículas”

Morador de Piabetá, Guará levou para sua comunidade um projeto social com instrumentos de materiais recicláveis, que ele já desenvolvia em favelas de Bonsucesso. O resultado tem sido surpreendente.

— Uma vez eu passei com minhas crianças próximo a uma boca-de-fumo, e um deles que estava se drogando levantou e falou: “professor, vai mesmo porque se eu tivesse feito isso na minha época não estaria aqui”. Eu trabalho em colégios e vejo como as drogas estão entrando violentamente e infelizmente nossos políticos não estão sabendo disso.

São projetos como esse de Guará, que muitas vezes acabam dando maior resultado do que programas federais como o ‘Mais Educação’, por exemplo, onde cada professor recebe R$ 300 para dar oficinas em cinco turmas:

— Eu falei na secretaria que esse projeto é uma porcaria. Eles não estão fazendo projeto para nossos adolescentes, e sim de justificativa. Eu tive que mudar tudo. Tive que ir em cada colégio e falar: “vê quem quer participar, e direciona ao regente”. Se não for assim, para o projeto e devolve o material. Se vocês acham que sou qualificado pra responder pela secretaria nessa área, então têm que me respeitar.

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Pablo Beato toca, entre outros lugares, no Cordão do Bola Preta, e é um dos que compartilham a visão de que o projeto federal ‘Mais Educação’ não dá certo: “tinham alunos que queriam estudar música, mas não podia, pois para o projeto da escola as diretoras tinham que lidar com alunos mais bagunceiros, que tiram notas mais baixas. Eu, sem receber nada em troca, fiz um projeto à parte para incluir quem queria estudar”
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O músico e responsável pelo setorial de música do CMPCM, Ronaldo Meirelles, fez um apanhado histórico sobre as bandas em Magé e citou Napoleão Bonaparte: “Coloque uma banda na rua e o povo a seguirá, para festa ou para a guerra” e Heitor Villa-Lobos: “O Conservatório Brasileiro de Música são as bandas do interior do Brasil”. Meirelles sugeriu que em Magé as bandas façam ensaios abertos à população
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Magé chegou a ter 20 bandas atuando em um único período
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Celeiro de bons músicos e maestros, Magé pode citar o Patrono dos Músicos do Exército Brasileiro, Franklin de Carvalho Júnior, Pedro Khalil, e Amaury Bento Caldeira. A luta do CMPCM é também pela preservação de suas memórias

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