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Associação de Pescadores luta pra sobreviver, enquanto ajuda vidas

O 'TH' da palavra 'LUTHANDO' não está errado. É uma homenagem de Lucimar ao casal de filhos LUAN e THAYNARA

Foi treinando kickboxer no cais de Piedade, que Lucimar Ferreira (atleta e árbitra federada do esporte) viu chegar as pessoas, a maioria crianças e mulheres que faziam caminhada, para lhe acompanhar nos exercícios físicos. O lugar público logo recebeu uma reforma a mando do então prefeito Nestor Vidal, quando este teve a sensibilidade de perceber que ali nascia um projeto social capaz de dar muitos frutos em meio a uma comunidade carente e sofrida. Foram assim os primeiros passos da já vitoriosa Associação Pescador Desportivo Luthando Pela Vida.

Ao lado do esposo Alcedino, o Didino, pescador de família tradicional na cidade, e que assumiu pra si participação fundamental nessa missão, Lucimar conta:

— Estamos há dois anos, começamos um pouco antes do Nestor sair. Eu sei que se ele continuasse, nos ajudaria muito mais. Mas de lá pra cá nossas tentativas de parceria com a Prefeitura não surtiram efeito. Estamos passando por dificuldades, mas mesmo assim conseguimos atender hoje não só aos moradores da Piedade, mas também do Canal, Barbuda, Parque Iriri, Barão de Iriri, Mauá, é uma faixa de cento e quarenta pessoas ao todo, com o kickboxer e com nossa escolinha de futebol, sem nenhum apoio do governo municipal nem de qualquer outra instituição — conta a jovem, natural de São João de Meriti, hoje devidamente instalada com seu projeto, documentado, em um sítio com cerca de 80 x 30 de terreno, na Estrada da Piedade Nº 2782, Magé.

O lugar, quando pertencia a outros donos, era referência de uma badalada vida noturna. Agora é seriedade, aprendizado e resgate de vidas. ‘Projeto de Deus’, acredita o casal

Mas nem tudo são flores. Com o município demitindo professores que ajudavam de forma voluntária o projeto, tais profissionais, muita das vezes sem ter nem o dinheiro pra passagem, não tiveram outra escolha a não ser cancelar a ajuda. Sendo assim, as aulas de natação, hidroginástica, dança de salão e zumba, vem passando por dificuldades nas ofertas. Em contrapartida, há professores aptos a ensinarem judô e karatê. Mas não há o tatame para os treinos.

E os obstáculos não param por aí. Apesar de um empresário ter doado dez mil reais para a entrada na aquisição do imóvel, e de outro empresário ter doado material para obras de reforma, as parcelas mensais são de dois mil reais, e dois meses já estão atrasados. Ainda faltam mais de dois anos para a quitação. E os proprietários, moradores de São Gonçalo, têm ‘marcado em cima’, falando até em desfazer o negócio. Caso o projeto acabe, será uma perda irreparável.

Com Luta e com Afeto

Uma das metas de Lucimar é concluir sua faculdade de Educação Física. Com essa realização, ela própria poderá suprir a falta de professores no projeto

— Aqui a gente cadastra famílias pra receberem cestas básicas, pra oportunidades de emprego junto a empresas, cursos, etc. Por exemplo, estamos tentando que aos sábados tenha um curso de Técnico de Enfermagem da ACEP, que é uma empresa de Saracuruna, com direito a estágio, e eles cobram preços mais em conta em parceria com associações. Da mesma forma a FAETEC, o diretor falou que consegue vagas pros nossos cadastrados. A faculdade UNOPAR também, ela tem preços populares e tem interesse em fazer um polo de Educação Física aqui, inclusive por causa da nossa piscina.

Traficantes quiseram ser ajudados

Lucimar com as inúmeras medalhas na carreira de árbitra e lutadora. Ela é a professora de kickboxer do projeto

Umas das ajudas braçais mais frequentes são de jovens que outrora encontraram no tráfico de drogas, no bairro Feital, um meio de arrumar dinheiro.

— Nós ganhamos eles. Eles ficavam pulando o muro aqui, até que a gente foi conversando, aconselhando, ajudando, até que largaram dessa vida. Hoje trabalham, uns estão casados, e só tem um que tá preso. Mas os demais nos ajudam, pintam muro, limpam, participam das atividades, são outras pessoas. Nós acabamos com o tráfico, mas eles quiseram ser ajudados.

A associação está aberta ao público, de domingo a domingo, e Lucimar e Didino convidam a todos

Novidades em março
O sonho de Lucimar não a deixa pensar em derrota. Com os olhos da fé, ela já vislumbra a continuidade de seu projeto em uma seara ainda maior: “eu quero ganhar a Lagoa”, diz ela ao mesmo tempo em que não entende como um trabalho como esse, com capacidade real de atender entre 800 e 900 pessoas, não atraia a atenção dos atuais gestores públicos.

— Eu trago material reciclável lá de São João de Meriti pra fazer artesanato pra vender, pra ter de onde tirar nosso sustento. Meu esposo é pescador mas não tá tendo peixe na Baía, não tem bambu pra curral. Mas a gente não desiste, estamos em contato com profissionais das mais diversas áreas pra que cada um ajude como pode. A partir de março teremos um veterinário atendendo duas vezes por mês; um psicanalista que vai trazer palestras sobre assuntos como depressão, ansiedade, convívio familiar, e consultas particulares a preços simbólicos; uma advogada; tem até um professor de História lá de Petrópolis que quer trazer um projeto sobre cinema comunitário; no futebol temos várias crianças que passaram em peneiras de times grandes mas infelizmente a maioria não tem condição de ficar se locomovendo pra longe. Eu não vou dizer que não preciso da ajuda de políticos, preciso sim, mas tá difícil alguém chegar junto. Todos que quiserem ajudar são bem-vindos — lembra a atleta.

Os relatos de Lucimar sobre o descaso dos políticos atuais para com uma causa tão nobre e essencial, são de dar tristeza. Ao tomar conhecimento de tais fatos, paira a dúvida: o município de Magé está sendo governado por administradores ou por tratantes?

“Depois de dois meses tentando, eu pude chegar até a secretária de Saúde, ela falou que viria aqui conhecer, mas já estou a três meses esperando essa visita. A princípio ela se mostrou bem animada, disse que aqui poderíamos colocar pontos de vacinação, palestras pra crianças sobre algumas doenças, enfim. Depois disso retornei inúmeras vezes mas não consegui mais ser recebida”.

“Já tem mais de um ano que eu estive com o secretário de Esportes, ele pediu que um assistente dele estivesse aqui, o Mauro, com uma profissional de Educação Física, eles vieram, tiraram fotos, falou que disponibilizariam uma professora de natação. Essa pessoa é a Ingrid, ela já desenvolve um trabalho nesse sentido com alunos especiais em outro lugar, e eu aqui tenho também essa demanda de crianças especiais. Ela me falou que estava à disposição da secretaria para eles combinarem a carga horária,
mas até agora nada, isso já tem uns oito meses”.

“Eu fui acompanhar a ‘Prestação de Contas’ do prefeito no Mageense, e o Cinho, presidente do clube, que é muito meu amigo, ficou de me apresentar ao vice-prefeito. No final ele nos apresentou, eu falei do projeto, e o vice-prefeito ficou de vir aqui na semana seguinte. Nunca veio, isso já tem meses”.

“Nós temos dois vereadores no nosso bairro: João Victor Família e Álvaro Alencar. Durante a campanha do João, ele vivia aqui. Foi ele que nos apresentou ao rapaz que limpava a piscina, dizendo que ele iria pagar o salário do rapaz por isso. Mas assim que ele ganhou, a primeira coisa que ele fez foi bloquear face, trocar de telefone, não ajudou em nada. O rapaz ficou trabalhando de graça, me ensinou a limpar a piscina e foi embora porque o João não pagou a ele. O João quando nos vê na rua, até atravessa pro outro lado. Quando a gente vai na Câmara ele até passa mal, enfia a cara no chão mas não olha pra gente, envergonhado. Já o Álvaro, sempre prometeu vir aqui conhecer, mas ele pelo menos quando me vê na rua sempre fala: “olha, eu não esqueci não, hem”. Se é que isso adianta de alguma coisa, né ?”

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