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CONSELHO DE POLÍTICA CULTURAL DE MAGÉ DEBATE APOIO À CAPOEIRA

O III Fórum Permanente do Conselho Municipal de Política Cultural de Magé aconteceu na tarde do dia 26, sábado, com o tema ‘Políticas Públicas para a Capoeira de Magé’. O local foi o Grêmio Musical Mageense, sede do Conselho, que recebeu mestres, instrutores, capoeiristas em geral, e interessados pelo tema.

Em pauta, o Conselho propôs oito medidas para o fomento da capoeira no município, e apesar de algumas serem, aparentemente, consenso entre os representantes, nenhuma foi aprovada. O que ficou decidido é que mais tempo é necessário para análise e formulação de outras ideias. Os capoeiristas se reunirão entre si para formularem as suas propostas, que deverão ser apresentadas até agosto.

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Na mesa, o Conselho representado (da esquerda para a direita) pelo secretário Alfredo Brandão, o presidente Antônio Seixas, e o diretor da Fundação Educacional e Cultural de Magé, Thiago Souza

Vale lembrar que pela lei estadual 5.577, de 2009, a capoeira é reconhecida como patrimônio imaterial do estado do Rio de Janeiro; e que o tema do fórum atende a uma exigência do Sistema Nacional de Cultura.

Foram essas as sugestões do Conselho: declarar a capoeira patrimônio cultural imaterial do município de Magé, implantar o Cadastro Municipal de Capoeira, implantar o Programa Municipal de Salvaguarda e Incentivo à Capoeira, criar o Conselho Municipal dos Mestres da Capoeira, implantar o ensino e a prática da capoeira no currículo das escolas municipais, criar oficinas de instrumentalização para aperfeiçoamento de técnicas de ensino/transmissão da capoeira, regulamentar a capoeira como modalidade de competição dentro de jogos escolares, tornar obrigatória a prática da capoeira nos ginásios poliesportivos.

Os Mestres Ponderam

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Realmente, se alguém pensou que seria um jogo fácil, se enganou. O debate foi caloroso e polêmico, mas sobretudo sincero e elucidativo. Um dos que mais argumentou foi o mestre PC, líder do grupo Zé Mussum e detentor do único Ponto de Cultura de Magé, que fica em Mauá:

— O que a gente tem que estar discutindo aqui é a valorização do capoeirista, que não tem. E valorização que eu sei é profissional bem pago. Se pedirmos os ginásios para darmos aula, não nos negarão, mas também não poderemos cobrar pelas aulas. Isso vai mudar nossa vida em que? A formação de um capoeirista são três universidades. Alguém acha que podemos ser profissionais da capoeira ganhando R$ 400 por mês? E lugar pra dar aula é o que não falta: vamos pra rua, pros campos de futebol. O que nos falta é incentivo financeiro – fala PC, lembrando ainda que existe um projeto do Ministério da Cultura chamado ‘Praça de Capoeira’, que disponibiliza espaços ao ar livre, padronizados, para a prática nas cidades.

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Mestre PC: “Valorização é profissional bem pago”

Mestre D’Gelo, representante do grupo internacional Fundação Capoeira, cita o município de Nilópolis, cidade reconhecida por ter até concurso público para instrutor de capoeira:

— Lá foi construída a primeira Escola Municipal de Capoeira do Brasil, numa época em que nós desenvolvíamos o projeto lá. A Prefeitura pegou um terreno, construiu biblioteca, espaço pra roda, etc. Aqui nós poderíamos ter um espaço assim para administrarmos, independente de grupo A, B, ou C. Isso empregaria muito professor de capoeira. E mais: diferente de Nilópolis, em Magé há muitos terrenos para se construir uma Escola de Capoeira. Aqui nós temos uma quadra de skate, que é um esporte que veio da Califórnia, e pra construir ninguém teve que pedir liberação de governo federal. Apoiamos muitos esportes que vêm de fora, mas à capoeira nada. Nos projetos extracurriculares das escolas, as diretoras nos convidam pra fazermos apresentação. Mas na hora de contratar, contratam professor de judô, uma cultura oriental — fala D’Gelo, organizador do evento que aconteceu um dia após o fórum, na praça de Magé e também no Tênis Clube, reunindo a Fundação Capoeira de boa parte do Rio.

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Mestre D’Gelo: “Nilópolis tem a primeira Escola Municipal de Capoeira do Brasil”

O professor Boni, da Associação Casa de Engenho, de Mauá, também não vacila em sua exposição:

— Ao invés de ser criado o Conselho de Mestres, deveriam fazer o Conselho de Capoeira. A presença dos instrutores e professores seria mais apropriada e mais participativa do que apenas os mestres, que são poucos no município. E ainda quanto aos ginásios poliesportivos: eu conheço um instrutor que dá aula em frente a um desses. Mas ali ele não pode entrar, por questões políticas — fala Boni, que arrancou risos dos presentes quando disse ter sido convidado pela Prefeitura para fazer uma apresentação com seu grupo: “isso aconteceu sim, mas foi no século passado”.

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Professor Boni: “Deveriam fazer o Conselho da Capoeira”

Animador cultural na rede estadual de ensino há 21 anos e há algum tempo na rede municipal como estagiário, André Alves é músico e embora não jogue capoeira, acompanha o Conselho e tem o que contribuir:

— Não vejo tão urgente a discussão sobre os jogos escolares trazerem a capoeira como “competição ou apresentação”. Têm coisas mais centrais. Eu nunca vi a capoeira provocar alguma coisa no corpo da escola, infelizmente. Quando há a Semana da Consciência Negra, a capoeira acaba sendo algo pra preencher um buraco, é uma coisa pra acontecer “lá na quadra”. Quando eu experimento, na minha música, pegar um instrumento africano, a associação que os alunos fazem é a pior possível. A aversão hoje, sobretudo com o crescimento do movimento neopentecostal é absurda. Ousar falar de um orixá em sala de aula, falar dessa lei com a qual trabalho debaixo do braço (Lei Federal 10.639, de 2003, que obriga o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira), é muito difícil. Apresentar essa proposta para a direção, para a equipe pedagógica, então, ainda é muito complicado — constata.

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André Alves, animador cultural: “Apresentar proposta para equipe pedagógica ainda é muito complicado”

Mais Cultura e Mais Educação “na mira”

Pode-se dizer que no geral o encontro foi bem proveitoso, e embora fosse sentida a ausência de inúmeros capoeiristas, sinalizou para diversas possibilidades. Por exemplo, alguém sugeriu que as escolas particulares que trabalhassem com capoeira sejam isentas de pagar Imposto Predial e Territorial Urbano — IPTU.

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O Magé Tênis Clube recebeu no dia 27 o Batizado e Entrega de Cordas do grupo Fundação Capoeira

Alguém também aproveitou para fazer um alerta sobre algo muito grave, que merece ser checado a fundo: da verba de R$ 22 mil do projeto federal Mais Cultura, que algumas escolas de Magé estão recebendo, R$ 9 mil seria para um parceiro desenvolver uma atividade cultural (R$1.500 por seis meses), R$ 3 mil para organizar um evento com palestrante, e o restante seria para manutenção e material. Porém, a parceria que vem sendo escolhida por algumas direções, notoriamente não tem ligação com o meio cultural. Para piorar: fotos de rodas de capoeira estariam sendo tiradas por pessoas ligadas ao projeto, como forma de justificar a verba recebida, sem no entanto as rodas fazerem parte do programa.

Em outra ocasião, as rodas de capoeira em determinada escola do município que trabalha com o projeto federal Mais Educação, tiveram que ser extintas para dar lugar a um trabalho com hortas. O motivo seria o preconceito: uma influência religiosa do esposo da diretora, que é pastor evangélico.

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