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Coordenadoria da Igualdade Racial realiza 1ª Feira Indígena em Magé

O Calçadão de Magé se transformou em uma aldeia no dia 16 de junho, com a primeira Feira Cultural Indígena, promovida pela COMPPPIR — Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial. A presença de representantes das etnias Pataxó, Fulni-ô, Tabajara, Guarajara, Apurinã, Potiguara, Tikuna, Pankararú, Tukano, Kayapó, Sataré Mawé, Ashaninka, e Puri, ao mesmo tempo em que alegrou, fez refletir: o que o tempo anda fazendo com as raízes de nossa história, município de nome Tupi, habitado por Timbiras e Tupinambás antes da chegada dos europeus?

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Nhãnderu é atriz e designer de moda. Fugiu de sua tribo aos 18 anos para viver na cidade, e relata ter sido agredida por duas vezes, vítima de preconceito

— Nós reparamos que nossa bandeira tem dois cocares, mas nunca havíamos feito uma homenagem aos índios — fala a coordenadora, Ivone Bernardo, ao justificar a ideia do evento.

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O pai de Luísa é italiano, e não permitiu que a pequena recebesse também um nome indígena. Apesar disso, é uma verdadeira curumim

A maioria dos visitantes pertencia a ‘Aldeia Maracanã’, ocupação que aconteceu de 2006 a 2013, e impediu a demolição do antigo Museu do Índio para obras da Copa do Mundo de 2014. Hoje são vinte famílias que vivem em um bloco no antigo presídio Frei Caneca, no Estácio. A morada provisória faz parte de um acordo com o governo, mas os índios não se dizem satisfeitos, e sabem que a luta não termina.

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Tabaja participou da Aldeia Maracanã, mas tem residência em Caxias. Atleta, vai participar da passagem da Tocha Olímpica por lá no dia 3. Aqui, com um dos carros que construiu pra mostrar suas medalhas

— Os próprios índios não se entenderam, um grupo começou a botar gente de fora pra fazer número, e isso a gente não aceita. Ou é índio ou não é. Em nossa associação só pode ter índio. Conseguimos que o governo tombasse o prédio como monumento, e estamos esperando eles reformarem pra nos entregar. O acordo é fazer ali o Centro Cultural Indígena e a Faculdade do Índio, mas até agora nada foi feito. Fica lá abandonado, com uma patrulha da PM tomando conta — explica o índio Akazuy Tabajara, lendário campeão maratonista, que aos 68 anos ainda compete, sempre descalço.

O cacique Doethyró, presidente da AIAM — Associação Indígena Aldeia Maracanã, faz coro:

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O cacique da Aldeia Maracanã, com Rubia e Lia

— Existem políticas públicas para os índios, mas elas precisam ser mais claras, hoje são invisíveis. Veja o caso de Belo Monte, foi a pior de todas as coisas que poderia acontecer, alagando as regiões, os ribeirinhos. Então precisa demarcar as terras indígenas, olhar para a saúde e educação. A gente quer participar mais diretamente da Política, mas não tem apoio — diz o cacique, citando os pontos de resistência que se destacam hoje no estado do Rio: “seis aldeias na região da Costa Verde”.

“Quem me dera ao menos uma vez ter de volta todo o ouro…”

Da dezena de sítios arqueológicos encontrados até agora na região Magé/Guapimirim, vale ressaltar os estudos e análises coordenados pela professora Sheila Maria Ferraz, em 1983, sobre a descoberta de Mendonça de Souza, doze anos antes, em Barão de Iriri. Os registros são de mais de dois mil fragmentos, entre ossos e cerâmicas. Na ocasião, foram ‘identificados’ ossos de 44 tupinambás, sendo quatro crianças.

Já na obra de Wilson J. Pinto, ‘Magépe-Miri – A Lenda da Cidade de Magé’ (que integra a primeira edição de ‘As mais Belas Lendas Brasileiras’), de 1982, é possível conhecer a ‘Lenda da Mirindiba’, contada através de relatos que remontam ao final do século dezoito. Mirindiba era uma jovem índia da tribo Timbira, que ao morrer picada por uma jararacauaçu foi transformada em árvore pelo espírito Guaiupiá, a mando de Tupã. A árvore, que a partir daí começou a ser vista pelo Brasil, se encontra até hoje no alto do Morro do Bonfim. A obra é rica ao mencionar nomes, costumes e lugares por onde passaram nossos primeiros conterrâneos, como os bairros da Figueira, Piedade, Mundo Novo, e o Morro do Bonfim —outrora conhecido como Ibitinga.

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Teve artesanato, culinária, música, dança, e sobretudo transmissão de sabedoria: a cultura indígena é rica e está em todo brasileiro. Indiara Potiguara promete voltar
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Salma (Fulni-ô), Ruru Shacha e Tika Carmem (Ashaninka)
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Antes de ir, uma pose para foto na oca improvisada: Rita Pataxo e Elvira Sateremawe 
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Tinguí é casada com Pacarí Pataxó. A família na aldeia cobra a cerimônia do matrimônio nos rituais indígenas 
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Guerreiro Curumim José Ubirajara em Magé

 

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