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Famílias impedem Policiais Militares de trabalharem em Magé

A onda de protestos pelos direitos trabalhistas de Policiais Militares no Rio de Janeiro chegou a Magé na manhã de hoje. Desde as 6h, cônjuges e familiares dos PMs, vindos de várias partes do estado, acampam em frente ao 34° Batalhão, impedindo a entrada e a saída dos mesmos. Houve tumulto na parte da tarde pois a ordem do Comando era pra que as viaturas que estavam nas ruas não circulassem em frente ao Batalhão, mas o motorista de uma delas descumpriu a determinação e os manifestantes (mulheres na maioria) literalmente ‘apreenderam’ o veículo.

Oficial conversa com manifestantes, mas elas denunciam: “um major nos agrediu e mandou que os policiais passassem por cima de nós com a viatura”. No portão de acesso ao bairro Vila Nova, outro grupo de manifestantes montou guarda.Pouco antes, o delegado da Polícia Civil, Angelo Lages, esteve no local prestando solidariedade ao grupo. No Espírito Santo, mais de setecentos policiais já foram punidos por crime de ‘revolta’, ao se aquartelarem 

Na confusão para que a viatura fosse liberada, um major à paisana chegou a agredir com um golpe uma das manifestantes, e mandou que os PMs passassem por cima delas com a viatura, segundo os relatos de testemunhas. Pelo menos até o começo da noite, a viatura não havia voltado às ruas, e não se sabe se houve punição aos policiais que descumpriram a ordem. Há relatos também de que policiais, impedidos de saírem pelo portão, puseram uma escada no muro dos fundos e ‘fugiram’ pela Secretaria Municipal de Obras, no bairro Vila Nova. A maioria das viaturas ficou ‘presa’ no Batalhão. Algumas, quebradas, passavam pelo centro em caminhões de reboque. O caminhão que abastece o posto de gasolina do quartel foi impedido de entrar.

— Esses que pularam o muro são baba-ovos dos oficiais. Eles não saíram para ir embora, saíram pra trabalhar, são esses os que saem pra pegar arrego, ainda mais que hoje é sexta-feira….— é o que opina uma das manifestantes que prefere não se identificar, e que continua relatando os motivos das reivindicações:

— São vários. O pagamento do décimo-terceiro, do salário,…. Quando recebe o salário não é na data certa, tem mês que recebe e tem mês que não recebe. E quando recebe é parcelado. Não tem condições de trabalho, eles têm que tirar do bolso pra consertar viatura, pra farda, o PROEIS que não saiu, a meta que não saiu, o RAS das Olimpíadas que eles ainda não receberam,…são muitas coisas — explica.

Policiais tentavam identificar possíveis líderes do movimento, e as chamavam em particular para convencê-las a liberaram a viatura…a proposta chegou a ser colocada em votação

E sobre mais uma promessa, divulgada essa semana pelo governador Luiz Fernando Pezão, a de que a instituição receberia aumento de dez por cento no salário, ela zomba:

— É lábia. É só pra tentar acalmar a gente. Mas a gente não vai desanimar. Só vamos sair daqui quando eles receberem todos os direitos.

Já Cristiane Rosa é viúva, e no seu desabafo ela chora contando que vem passando necessidades com seu filho que é autista, e afirma receber ajuda de outras esposas de policiais. Ela classifica o governador do estado como “desumano”.

— Eu já tô de saco cheio dessa PM e desse estado. Meu marido era o sargento Jeferson, daqui desse batalhão. Ele cometeu suicídio. Estava psicologicamente muito doente, depressão fortíssima, foi procurar ajuda no Hospital da Polícia e recebeu um não. O hospital mandou ele procurar ajuda de um psiquiatra num hospital público ou da rede privada. É isso que acontece com nossos policiais. A PMERJ não dá assistência, ela está falindo e nossos policiais estão morrendo. Eles morrem em combate, morrem em atos de covardia, e morrem tirando a própria vida porque já não aguentam mais. No nosso contracheque vem descontando o HCPM — Hospital Central da Polícia Militar — que não nos dá a devida assistência, o atendimento lá é crítico, é precário – desabafa.

Greve não, paralisação!

Perguntada se é o caso de as manifestações serem uma forma de os policiais militares decretarem greve, uma vez que pela Constituição Federal eles são proibidos de exercerem esse direito, uma das manifestantes explica:

— Não é greve, é uma paralisação que nós estamos impondo a eles. Nós mesmos, por livre iniciativa, nos organizamos em grupos de whatsapp e não estamos deixando eles trabalharem. Estamos nos comunicando aqui com várias cidades. Essa é uma manifestação própria nossa, eles não estão envolvidos, até porque não podem. Nem eles estavam acreditando que a gente viria. E outra coisa, os policiais aqui em Magé estão muito ignorantes, nas outras cidades a gente sabe que eles estão apoiando. Acho que aqui eles ainda não se conscientizaram que isso é para o bem deles mesmos.

Assessoria da PM não reconhece bloqueio a viaturas em Magé

Nem na troca de plantão das manifestantes, elas liberaram a viatura: “nosso objetivo é chamar a atenção para o problema. Se liberarmos essa, vira bagunça, vamos perder força”

Respondendo ao email enviado pela reportagem de O Mangue, que perguntava especificamente sobre a paralisação em Magé, a Assessoria de Imprensa da Polícia Militar diz o seguinte:

“Grupos de familiares de policiais se concentraram na frente de 27 (vinte e sete) Unidades durante o protesto iniciado na madrugada desta sexta-feira (10/02). Eles reivindicam o pagamento do 13º salário, do RAS Olímpico e das metas atrasadas.

Não existe paralisação da Polícia Militar e sim uma mobilização de familiares, iniciada pelas redes sociais. Estamos atentos às mobilizações e conscientizando a tropa da importância da nossa presença nas ruas. O policiamento está sendo realizado normalmente. Apenas em 04 (quatro) Unidades há bloqueio na entrada e saída de viaturas – 3ºBPM (Méier), 6º BPM (Tijuca), 20ºBPM (Mesquita) e 40ºBPM (Campo Grande) – onde há diálogo constante com os manifestantes no sentido de sensibilizá-los sobre a importância da saída do policiamento. E mesmo nessas Unidades, há policiamento rotineiro em suas áreas de atuação.

A Polícia Militar reitera que respeita o direito democrático de manifestação pacífica, mas é fundamental que as formas de buscar os nossos direitos não impeçam o ir e vir dos nossos policiais, nem coloquem em risco as nossas vidas, dos nossos familiares e de toda a população”.

O pátio do Batalhão em Magé esteve repleto de viaturas ao longo do dia

 

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