Colabore com reportagens exclusivas, sendo um Sócio-Patrocinador do site O MANGUE. Escolha sua opção de Assinatura On-Line, ou, se preferir, deposite qualquer valor em nome de Bruno de Almeida Silva, Agência 0183, Conta 121454-1, Caixa Econômica Federal. O Jornalismo Local e Independente agradece!

NESTOR VIDAL E OS CAMINHOS DA VIDA: PREFEITO AFASTADO CONTA TUDO!

Nesta entrevista, praticamente a primeira desde que foi cassado pela Câmara Municipal de Magé, o ex-prefeito Nestor Vidal de Moraes Neto, 61 anos, revela os bastidores do que chama de “golpe contra a Democracia”, e se permite traçar uma análise entre sua gestão e a atual. A conversa improvisada foi gravada em seu apartamento no dia 28 de novembro.

Quando já desligado o gravador, o celular de Nestor recebe um zap. Era o intermediário de um dos vereadores que orquestraram seu afastamento (e que inclusive foi relator em uma das Comissões Processantes), e que agora, ao ouvir rumores de sua candidatura a deputado federal, se aproxima querendo apoiá-lo. Nem tudo é tão simples.

O MANGUE – Segundo o Tribunal de Contas do Estado, as contas de 2016 na Prefeitura de Magé deixaram um déficit financeiro de mais de onze milhões de reais, gastos irregulares de mais de oitenta e três mil com a verba do Fundeb, e outros problemas que acabaram fazendo com que elas fossem reprovadas. O senhor viu essa matéria? Foi notificado a se explicar no TCE?

NESTOR VIDAL – Eu vi essa matéria no site do TCE, mas não fui notificado sobre isso. Se eu tivesse sido notificado, eu iria lá e iria explicar que nesse período de 2016, eu saí no início do mês, no dia 7 de abril. Daí em diante, todo o ano foi com o Tubarão. Ele pegou o orçamento no início, e fez todas as aplicações de verba. Cabe a esse gestor que tenha finalizado o ano, fazer os ajustes pra entregar as contas ao Tribunal.

O MANGUE – Quanto foi deixado em caixa pelo seu Governo?

NESTOR VIDAL – Em várias secretarias. Na Saúde tinham mais de quarenta milhões pra serem aplicadas em obras específicas. Na Educação mais de trinta milhões pra serem aplicadas em situações específicas. Porque as verbas vêm carimbadas. Você não pode usá-las ao bel prazer. Umas são pra Atenção Básica, outras pra urgência, outras pra medicamento, a Educação é pra compra de livros, pra reformas das unidades, tudo vem com a nomenclatura pra ser usada, quem faz uso indevido disso é responsabilizado.

O MANGUE – Como foi aquele início de ano?

NESTOR VIDAL – Quando me tiraram da Prefeitura nós não tínhamos déficit de nada, estávamos iniciando o orçamento e a Câmara já vinha criando alguns problemas, tanto que nos tiraram a condição de remanejar verba. Nos deixaram com a capacidade de remanejar apenas um por cento. Quando Tubarão entrou, liberaram o teto para ele remanejar, cinquenta por cento. No início eu já tinha dificuldades com o orçamento, mas até aquele momento, nós conseguimos fazer de uma tal maneira que nenhuma dificuldade nós tivemos naqueles três primeiros meses. Nós tínhamos um planejamento e um orçamento que daria pra fechar todas as contas do município, sem nada atrasado, tudo certinho, salário em dia, a reserva do décimo-terceiro, tudo. Quando o prefeito e esse grupo assumiu, aí começou, na minha maneira de ver, a utilização da verba de forma inadequada. Tanto que estava chegando o período eleitoral, e começaram a fazer contratações desnecessárias, desesperadas, pra se utilizar apenas naqueles dias, e usar verbas que tinham destino específico, pra outro tipo de coisas que eram eleitoreiras, obras eleitoreiras, etc. Isso é que deu desequilíbrio nas contas. O TCE, no período todo em que fui prefeito, nunca em momento algum reprovou as minhas contas, porque eu era rigoroso em acompanhar todas as orientações do TCE e as determinações da lei. Eu penso que eles não observaram isso. Estavam muito empenhados em se manter no cargo e falaram tipo assim: ‘depois eu resolvo o que tem que fazer’. Mas eu acho que esse depois não veio e pelo visto nunca vai vir. A não ser que eles tenham o planejamento de resolver a Câmara. Bom, então deixa isso pra Câmara, mesmo que o TCE reprove as contas deles, eles resolvem isso tudo entre eles. Só pra esclarecer a você: o ano não é divisível, não é por gestão. O período do ano do orçamento se inicia no dia primeiro de janeiro e termina em trinta e um de dezembro. Seja quem quer que tenha passado ali. Cabe a cada parte fazer a sua defesa dentro daquele período que lhe cabe. Então, se eu fosse chamado pelo TCE, eu não vejo nenhuma dificuldade em que eu pudesse me recusar a ir lá, ou então ir só pra falar: ‘olha, eu fiquei até a primeira semana do mês quatro’.

O MANGUE – Em algum momento chegou ao seu conhecimento que a Câmara tivesse aprovado as contas, de maneira ‘às escondidas’?

NESTOR VIDAL – Alguém falou que eles queriam aprovar isso já, mesmo estando elas reprovadas pelo TCE. Isso me causou surpresa, porque não faz tanto tempo, o TCE aprova minhas contas de 2015, dizendo que estava tudo de acordo com as normas, com algumas correções simples pra serem feitas, e a Câmara reprova por unanimidade. Deixando bem claro que essa reprovação foi simplesmente pra atender a vontade do prefeito do município. Não era uma análise técnica. Você imagina: que análise técnica essa Câmara tem superior ao TCE? Então eles reprovaram essas contas de 2015 somente agora este ano, com essa Câmara nova. Tem vereador ali que, sinceramente, não tem condições de analisar. Isso me faz lembrar, primeiro, o fato do meu afastamento. O Judiciário não analisou o mérito, e a Câmara inventou uma mentira e ela mesmo julgou a mentira que ela fabricou. Então, em cima de uma mentira eles fazem um tribunal entre eles e decidem pelo meu afastamento. E em todos os esforços que eu fiz para que o Judiciário atuasse nesse sentido de julgar o mérito, não tive êxito, quem teve êxito foi a Câmara. E hoje não tenho nem mais o que chorar, porque o prejuízo, o mal, já foi feito. Mas continuamos a briga na Justiça para saber se o motivo pelo qual fui afastado é real ou não.

O MANGUE – Dentre toda essa mentira que o senhor entende ter sido vítima, a que resultou diretamente em sua saída foi o caso da Clínica Cidade?

NESTOR VIDAL – Foi dizer que a Clínica Cidade me pertencia. Ela não me pertencia. Antes de eu ser prefeito, eu já havia passado ela, antes de eu assumir. E eu passei porque eu sabia que para atender a lei, eu não poderia ser proprietário de clínica. Deixei de ser o proprietário para atender a legislação. Você se esforça para atender a lei, cumpre a lei, os contratos todos foram feitos antes de eu tomar posse, e mesmo assim, em vésperas da eleição, a Câmara numa reunião decide o que decidiu e a Justiça não faz o julgamento em tempo hábil.

O MANGUE – O Contrato mostra a data da sua posse.

NESTOR VIDAL – A transação comercial foi feita antes da posse, antes até da eleição, conforme documentado em recibo e tudo. A eleição foi em uma semana e a posse foi na semana seguinte, foi muito rápido. Só que se você me vende um comércio, a gente assina o contrato, estabelece o negócio, vai pro contador e o contador manda pra Junta Comercial. Aquela transação leva de quinze dias a um mês pra Junta te dar um documento homologando aquilo ali. E a Junta Comercial deu o documento exatamente no dia da posse. Não pode se confundir a data do registro da Junta, com a data da negociação. O documento da negociação é bem anterior à posse e anterior à eleição.

O MANGUE – Como está a questão do seu afastamento hoje no Judiciário?

NESTOR VIDAL – Nós entramos com o pedido em Magé, primeira instância, o Judiciário disse que não analisaria o mérito. Iria analisar só a questão política da Câmara. Analisou e deu ganho de causa pra eles. Ora, meu Deus. O que a gente quer que o Judiciário faça? Que julgue, se o fato aconteceu ou não. Então mandamos pro Tribunal de Justiça, que também se igualou a Magé ao dizer que não iria julgar o mérito no momento. A gente está tentando pedir que a Justiça analise o mérito do meu afastamento, em outras palavras: que julgue se as alegações são verdadeiras. Outra das mentiras criadas é que, a Clínica Cidade, que não me pertence, recebeu um dinheiro, que nunca recebeu. Por quê?  Se o dinheiro não saiu da Prefeitura nos valores que eles citam, e se também os saldos da Clínica não demonstram a entrada desse dinheiro, qual é a comprovação que eles têm pra dizer que houve desvio? Se não saiu da Prefeitura em momento algum, nem entrou na Clínica, então é uma mentira. Eu tive um posicionamento do Judiciário que diz que eu deveria arquivar a ação, já que isso não pode me dar o mandato de volta. E eu estou apelando para que eles julguem o mérito, continuo pedindo isso. Não quero voltar ao mandato, até porque não posso voltar, mas quero que o Judiciário analise na transparência da lei, é meu direito, eu sou inocente e quero ser inocentado.

O MANGUE – A Câmara mostrou uma planilha que trazia a progressão anual do valor do contrato, ou do aumento do volume do serviço, se não me falha a memória.

NESTOR VIDAL – Eles fizeram um jogo de cena mentiroso. O que tinha era um orçamento, uma previsão orçamentária da secretaria pra ser investido ao longo do ano em todos os exames complementares, de todo o município, em todos os prestadores. Pegaram aquele montante e enganaram dizendo que aquele montante seria pra Clínica Cidade. Isso tinha um total de vinte e três milhões, se não me engano. Uma grande farsa, um grande teatro. Na verdade, de toda essa verba, a Clínica Cidade ficou com menos de um milhão pra doze meses, pra atender postos de saúde, emergências, esse tipo de coisa. Orçamento é uma coisa, é pra ser distribuído. E execução é outra coisa, é o dinheiro saindo a Prefeitura e entrando pro prestador. Esse dinheiro que a clínica faturou, saiu da Prefeitura e entrou pra conta da Clínica. Nada mais entrou. Eu acho que o povo foi vítima de um grande golpe da democracia, e esse dinheiro que a gente deixou aí serviu na verdade pra reeleição deles. Hoje a gente vê o caos que está a gestão pública em Magé.

O MANGUE – Houve também uma questão envolvendo um caseiro que trabalharia para sua família a receberia pela Prefeitura.

NESTOR VIDAL – Outra situação. Primeiro, eu não tenho sítio. Ah, mas é da sua família. De quem é o sitio? Quem é essa pessoa que dizem que era funcionário? Não dizem que era caseiro não, dizem que era um funcionário. Lá nesse sítio não tem caseiro nem funcionário. O negócio tá lá praticamente abandonado, eu mesmo não vou lá tem anos e anos e anos, são coisas precárias que têm lá. O meu advogado não esteve presente durante o testemunho desse senhor, pra fazer perguntas simples. Eu não sei quem é essa pessoa, nunca vi, não sei quem contratou. Esse cara fazia o que no sítio? Roçava, plantava, cuidava do jardim? De quem ele recebia ordem? O que tinha no sítio pra ele tomar conta? Eu queria saber. Foi uma coisa muitíssimo estranha esse depoimento, a Câmara fez na calada da noite, a portas fechadas, meu advogado não foi comunicado nem esteve presente. Montaram esse depoimento. Assim como montaram todas as Comissões Processantes, que um vereador só sabia que ele era o relator ou o presidente na hora em que as sessões iriam acontecer. E parece-me que essa pessoa que deu esse falso testemunho, pelo que a gente pôde apurar, já esteve envolvida em agressão de idosos, um monte de coisa,…e a palavra da gente em relação de que isso não aconteceu, de que eu não tenho sítio, quer dizer, não seria interessante uma acareação? Eu teria perguntas simples a serem feitas.

O MANGUE – Como o senhor avalia a atitude do vice-prefeito Claudio da Pakera em renunciar o mandato?

NESTOR VIDAL – Pois é. Vamos pro bom senso. Como que um vice-prefeito vai pra uma Câmara, de uma hora pra outra, renuncia o mandato dele, sem nunca ter demonstrado insatisfação com nada, fala mais de uma hora, naquele mesmo dia acaba a sessão e somem os vereadores todos, vão pra um retiro e voltam na próxima sessão pra votar a cassação do prefeito, e aprovam isso, e todos os vereadores eram da base do prefeito. Como se explica? Isso não tem um cheirinho de alguma coisa ligada a golpe? Já que o vice-prefeito, renunciando, torna o presidente da Câmara o vice-prefeito? Não é o Legislativo se agigantando perante o Executivo num golpe nítido e claro pra cassar o prefeito? E a partir desse momento, se viu uma Câmara trabalhando em recesso, trabalhando vinte e quatro horas por dia, alterando a Lei Orgânica, fazendo comissão, começou uma briga interna na própria Câmara depois disso, onde vimos até a morte de um deles…

O MANGUE – O senhor foi intimado a depor sobre a morte de Geraldão. Como foi lá?

NESTOR VIDAL – Fui convidado a ir na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, fui ouvido por três pessoas lá. Me perguntaram o que eu sabia sobre esse crime. Eu sei o que todo mundo sabe. Que Geraldão estava na Câmara e foi assassinado ali no estacionamento. Meu relacionamento com ele não era ruim, era bom, foi meu secretário. Em algum momento ele foi chamado a retornar à Câmara porque algo estava acontecendo, que já eram os processos pra me cassar…

O MANGUE – Ele foi chamado, ou sentiu que a Câmara poderia sair vencedora e correu pra liderar alguma coisa?

NESTOR VIDAL – Ele foi porque ele quis, eu não o exonerei. Inclusive o suplente dele era pra ser o Didiu mas acabou sendo o Betinho por causa de uma decisão da Câmara e do partido deles,..e o que aconteceu? A gente ficou nessa rede de coisas, mais um vereador assassinado, Magé novamente nas manchetes de crime político, e toda uma cortina de fumaça nessa situação. Agora, o que os próprios inspetores comentaram, é que, segundo as investigações, o vereador queria ser o prefeito no caso de ter que haver outra eleição, e isso parece que desagradou a algum grupo. Hoje quando a gente vê o tipo de gente envolvida no Poder, na Prefeitura aqui em Magé, eu lamento dizer: corre-se o risco de termos mais mortes como essa, porque as pessoas não são lá de tão boa índole assim. São pessoas que já têm um passado que as condena. Eu sei que eu dei meu depoimento, a gente lamenta isso tudo, e estamos na expectativa de que esse crime seja solucionado.

O MANGUE – O senhor disse em uma entrevista ao jornal O Dia que chegou a ser ameaçado. Como foi isso?

NESTOR VIDAL – Quando você fazia uma licitação, quando você fazia operações de choque de ordem, por exemplo, tinha sempre pressão, tinham recadinhos, ouvia-se muita coisa. Eram ameaças sim pra tudo quanto é lado. Eu mexi num ninho,…sempre tinha alguma coisa que vinha veladamente, ‘Nestor, cuidado, olha,..’. No fim a gente nem ligava mais, mandava entrar na fila, sabe como?

O MANGUE – O senhor acha que o fato de não ter apoiado o Leo da Vila pra federal em 2014, teria gerado nele uma revolta, e a partir dali ele influenciou os demais vereadores contra o senhor?

NESTOR VIDAL – Não. O Leo eu o ajudei sim. Mas a gente via que era um processo muito aventureiro. Nem o Leo mesmo fazia campanha pra ele. Eu não senti, em momento nenhum, reação de qualquer vereador demonstrando insatisfação com isso.

O MANGUE – Voltando ao ex-vice prefeito Claudio da Pakera, em nenhum momento o senhor o sentiu desconfortável com o governo?

NESTOR VIDAL – A insatisfação do Claudio sempre foi pelo fato de ele não ser o prefeito. Pra você ter uma ideia, até quando demos uma secretaria pra ele coordenar, ele não ia na secretaria, que era a de Obras. Deixava um funcionário lá da empresa dele, enquanto ele nem botava os pés lá. Ele queria ser o candidato, mas o partido e as pesquisas sempre mostraram que a aprovação dele nunca passava de três por cento, ele não tinha condições de concorrer contra ninguém. Mas ele queria em algum momento ser o prefeito. Quando ele sentiu que isso não seria possível, ele começou a fazer críticas à minha pessoa. Mas eu não julgava que chegasse ao ponto de renunciar e fazer aqueles tipos de insinuações, de denúncias. Então, pra mim essa renúncia foi negociada com o presidente da Câmara. E tem comprovações disso. Depois que ele renunciou e o presidente assumiu, ele passou a ter cargos no governo, pessoas da equipe dele passaram a trabalhar na Prefeitura, foi algo muito bem combinado. E os vereadores que eram meus amigos, de uma hora pra outa sumiram. Quando me viam ficavam nervosos, choravam, diziam que não podiam tomar posição nenhuma porque foi feito um pacto entre eles, e a gente nem quer apurar muito essas coisas, sabe, porque não é da nossa especialidade, a gente nem sabe como que faz isso.

O MANGUE – Dentre esses vereadores que eram seus amigos, talvez o mais próximo seja o Rogério do Vale, que hoje é o presidente da Mesa.

NESTOR VIDAL – Rogério do Vale só foi vice-presidente da Câmara porque quando o Tubarão foi disputar o segundo mandato de presidente, pediu meu apoio e eu disse que o apoiaria com a condição de que o Rogério fosse o vice. Eles queriam o Leo da Vila ou o Vandro. E até por uma questão partidária, a minha preferência era o Rogério. Isso gerou descontentamento entre eles, eu sei que na reunião o Miguelzinho não foi, o Carlinhos não foi, o Vandro declaradamente se mostrou contrário, mas foi resolvido, e na hora até o próprio Vandro votou em Rogério. E não adiantou, porque o Rogério na primeira oportunidade se aliou ao presidente, e, enfim, a vaidade é uma coisa muito perigosa…

O MANGUE – O Rogério inclusive adiantou a eleição dele para o próximo biênio, recentemente. Qual sua opinião sobre isso?

NESTOR VIDAL – É uma brecha da legislação, ela permite isso. Mas não é moral, é? A questão é que você tem que ser avaliado depois de um período para que seus pares o reeleja ou não o reeleja. Você antecipar uma eleição em um ano que nem terminou, é provocar uma decisão precoce demais. A pessoa não foi ainda avaliada, e você aproveita um momento político pra garantir mais dois anos na frente. Eu acho que a lei deveria extinguir a possibilidade de uma situação como essa. É como se um prefeito ganhasse uma eleição com voto popular e no mês seguinte falasse: ‘vamos logo fazer a reeleição minha? Tá tudo indo bem, tudo tranquilo,..’. E ele faz isso pra ser reeleito por mais quatro anos. É a mesma coisa. Eticamente está errado. Mas a gente vê pelo Brasil a fora, as Câmaras fazendo absurdos atrás de absurdos. Eu vejo e sinto que vários prefeitos estão sendo reféns de suas Câmaras. Isso está sendo uma prática: os prefeitos se subjugando perante o legislativo municipal. Então é assim: se isso não agradar, é ameaça, é CPI, é isso, é aquilo, então hoje, as Câmaras, a maioria delas, não é mais nem menos do que um meio de se chantagear o Executivo, com cargos, com contratos, com verbas, pra reeleição e vantagem pros vereadores.

O MANGUE – O atual prefeito de Teresópolis, Mário Tricano, está denunciando situações como essa que o senhor se refere. O senhor acha que deveria ter feito isso em algum momento?

NESTOR VIDAL – Eu procurei fazer o caminho que julgo certo, que é através do Judiciário. E eu tinha bons argumentos jurídicos pra me defender. Eu nunca pensei, e eu acho que não serviria, pra fazer gravações ou qualquer tipo de coisa sem conhecimento das pessoas. Não seria essa a prática, eu nem sei fazer isso, filmar ou gravar a pessoa sem o consentimento dela. E eu tinha ao meu favor o bom Direito, os fatos que resultaram em minha saída eram fatos inventados, mentirosos. Quem fala a verdade, quem faz a coisa certa, tem que acreditar no Judiciário. Se pra valer a Justiça você tem que ter um advogado muito bom, ou que se valer de outros artifícios, aí eu já acho que fica uma coisa injusta. Eu não me submeti quando se desejava que de repente eu negociasse com eles qualquer tipo de situação. Eu me recusei a fazer isso. Da pessoa chegar pra você e falar: ‘renuncia pra eu vir candidato’…

O MANGUE – Quem falou isso?

NESTOR VIDAL – Tubarão. Ele chegou a fazer isso, e eu falei não. Fui eleito pra quatro anos, como eu ficaria diante disso? Você imagina eu renunciar ou me licenciar e o Tubarão entrar na Prefeitura e fazer esse descalabro todo que ele está fazendo? Não seria ele o responsável, o responsável seria eu. Então pra sair, eu prefiro que seja integralmente. Ele teve que me tirar pra fazer isso. Mas não teve motivo pra me tirar, não teve mérito. Me tirou em uma clássica formação de quadrilha.

O MANGUE – Miguelzinho e Leandro Rodrigues chegaram a ser seus secretários, ambos de Esportes. Como era a relação com eles nessa época? Houveram problemas nas pastas?

NESTOR VIDAL – O Leandro pediu pra sair meses antes do movimento que levou à minha cassação. Pediu demissão, disse que queria mais recursos pra secretaria. E o Miguelzinho queria fazer, de cara, uma administração paralela. Isso a gente não pode permitir. Tem que estar todos pactuados dentro de um conjunto de trabalho. Mas ele em pouco tempo queria fazer a secretaria como sendo uma secretaria de uma administração independente. Isso não pode.

O MANGUE – O senhor acredita que o Miguelzinho, embora tenha se afastado do atual governo, ainda atua nos bastidores? Sabe de alguma coisa nesse sentido?

NESTOR VIDAL – Eu acredito que sim, acho que o Miguelzinho é uma das eminências pardas do governo do Tubarão. Se ele se afastou, é porque não quer se expor. Mas ele é uma peça-chave nesse governo. Não acredito que ele esteja fora da gestão. Até porque ele tem muitos serviços prestados aí, tem empresas que foi ele que colocou pra prestar serviços na Prefeitura.

O MANGUE – Um dos vereadores da sua época, que praticamente desde o começo do seu mandato o criticou, foi o Carlinhos da Ambulância. Era declaradamente ‘de oposição’. Teve algum motivo pessoal pra isso?

NESTOR VIDAL – Carlinhos não era de oposição. Ele foi ser oposição pelo número de pessoas que ele queria nomear, pelos equipamentos que ele queria ser o responsável, principalmente os ligados à Saúde, na SUCAM também, e eu não me submeti a ele nessas inúmeras vontades. E ele, logo de imediato, fez um acordado com o Ricardo da Karol, que tinha interesse em manter alguém. E aí o Carlinhos vestiu um papel que era interessante até para os outros vereadores, eles precisavam de um Carlinhos da Ambulância pra eles, ele estava a serviço da Câmara o tempo todo.

O MANGUE – O senhor era amigo do Tubarão? Frequentava a casa dele? Foi padrinho de casamento…

NESTOR VIDAL – Não. Não fui padrinho, não era amigo, não frequentava a casa dele. Nem sei de onde saiu esse boato de que eu fui padrinho de casamento dele. Eu fui convidado, e ficaria uma desfeita muito grande em não ir. Mas nem na própria recepção eu não fiquei, fui na solenidade e fui embora. Não fui jantar. Quem foi padrinho foram alguns vereadores. Eu me lembro que foi o Leandro, Leo da Vila, acho que o Vandro,…É só ver a certidão, eu não fui padrinho. Agora, eu o tinha como uma pessoa amiga, mas não tinha hábito de frequentar a casa dele nem de ninguém. E ninguém tinha hábito de frequentar minha casa. Eu era bem formal nesse sentido.

O MANGUE – Se caso o senhor continuasse até o final do mandato, o senhor lembra quais projetos seriam executados e que o novo governo não abraçou?

NESTOR VIDAL – Claro, tinham obras prioritárias. Tínhamos conseguido uma verba extraordinária e que a própria Câmara já vinha me causando dificuldade pra usar, mas a gente conseguiu uma verba da Petrobras pra fazer ciclovia, calçada e iluminação de Bongaba até o centro de Piabetá. A Petrobras também tinha dado uma verba pra fazer o Centro de Capacitação do Funcionário Público da Educação, naquele colégio lá próximo ao antigo matadouro. Esse era um objetivo meu e foi uma das frustrações porque não pude concluir. Outra coisa que tínhamos conseguido, a título de doação, que a Fundação Itaú nos desse aquela sede lá na estrada nova de Mauá. Enorme, tem quadras, piscinas, salões, alojamentos, e nós estávamos com a intenção de criar ali uma colônia de férias para o funcionário público. A reforma não seria tão grande, a gente ia procurar parceiros pra isso, pra que pudéssemos entregar até o final do ano aquela sede para que o funcionário pudesse usufruir nas férias, ou até em finais de semana quando não estivesse trabalhando. Eu espero que essas coisas ainda possam ser feitas com outros prefeitos, porque Magé não vai ficar com essas tralhas aí o tempo todo, isso vai ter que mudar. Olha, você quer ver? Vai chegar ano que vem e essas obras vão voltar a acontecer pra elegerem os candidatos deles, aí contrata todo mundo, depois manda embora sem direito a nada, mas eu acredito que o povo não está mais disposto a ser enganado, eu acho que a população de Magé já está preparada e vacinada contra isso.

O MANGUE – Uma das denúncias que o Claudio da Pakera fez quando renunciou, foi sobre umas empresas que o vereador Carlos Prata teria ligação junto a Prefeitura pra aluguel de máquinas. E estranhamente a Câmara não quis mexer nisso.

NESTOR VIDAL – Então. O que eu observei nesses anos que trabalhei como prefeito? Você abre uma licitação, faz um edital, o tribunal vem, fiscaliza, manda você fazer novamente, muda os termos, você edita outra vez, até que o tribunal vê mais alguma coisa, muda tudo de novo, até que chega lá na hora e aparecem quatro ou cinco empresas pra concorrer com aquilo. Tá bom, você chega, vê a melhor proposta pro município, o contrato que você julga que vai ser mais eficaz, e aquela firma vence e começa a trabalhar. É assim com fornecimento de merenda, material escolar, máquinas, é tudo o mesmo processo. Tudo fiscalizado, o Tribunal bota no site dele, têm pessoas que ficam sabendo disso pelo Brasil a fora, têm firmas que vivem atrás dessas convocações, o pessoal sabe de tudo na mesma hora que é publicado e notificado e o próprio Tribunal faz questão de fazer. Tudo bem. A firma ‘H’ ganhou a concorrência e vai prestar serviço. Tudo certo? Tudo. Algum problema? Não. Qual a surpresa que a gente tem, e isso tem um significado importantíssimo nisso tudo que a gente tá falando sobre Câmara: a empresa começa a operar, e não passa dois meses pra descobrirmos que já tem um, dois, três vereadores que já estão ligados com o empresário que ganhou aquela concorrência, e a gente não sabe nem porque. Os empresários em pouco tempo se rendem pra essas coisas de Câmara. É muito comum você ver, você ouvir dizer, você saber, dessas ligações. Caramba! Cada firma que prestava serviço em Magé, tinha sempre uma história de que estava ligada a alguém. Mas entrou sem estar ligado, muitas vezes a firma não era nem daqui, e agora? Isso é uma praga. Vereadores chantageiam, são olho-grande, acabam é atrasando tudo, é corrompendo todo um trabalho. Quantas vezes os empresários me chamavam pra dizer que foram procurados pelo vereador fulano de tal, ciclano de tal, que querem dinheiro, querem isso, querem aquilo, e eu falava ‘olha, eu não tenho nada com Câmara nem com ninguém’. Aí os caras me falavam, ‘vou dar uma coisinha porque não quero aborrecimento’. E eu alertava: ‘não dá nada, eu nem quero tomar conhecimento disso’. Mas não era raro, você estar em determinado lugar e ver os caras, dois, três vereadores almoçando e vinham me apresentar: ‘aqui, prefeito, esse aqui é o dono da empresa tal’. Então essa promiscuidade é muito grande e muito marcante em Magé, e em outros lugares. O Claudio disse que as máquinas eram do Prata. Ele deve saber mais do que eu sobre essas situações todas. No final você fica desconfiado de que aquilo realmente é verdade. Mas você não tem certeza, porque você não começou o processo dessa forma, acaba você ficando vendido. Até porque, uma concorrência a gente analisa através de papel e documentos apresentados. Se amanhã ou depois o cara se sente seguro pra ter uma relação promíscua ou não com algum politico,…eu tentei me preservar sempre nessas relações, eu era um cara de pouco contato com o meio empresarial. Que chegavam essas acusações, chegavam. Mas eu me importava em procurar saber se o serviço estava sendo executado, e se estava bem feito e se estava no preço. Eu não procurava tratar dessas situações no ‘pós’. Se não, a toda hora eu ia ter que estar fechando todos e abrindo todos, fechando todos e abrindo todos, isso não teria fim.

O MANGUE – Como é sua relação hoje com os vereadores? Ficou alguma amizade na Câmara ou alguém que tenha te desapontado mais?

NESTOR VIDAL – Não. Veja só, reprovaram minhas contas de 2015. Por unanimidade. Ué, mas por que o Rogério votou contra, se ele via a lisura do nosso processo? Por que o Lopes votou contra? Ele era um cara do partido que nós montamos pra pedir voto, PRB e PDT. Qual o motivo? Que força é essa que fez essas pessoas votarem contra minhas contas, já que o TCE tinha aprovado? E outras pessoas que não vale a pena nem citar o nome, porque nem valem essa citação. Eu me surpreendo em relação a isso. Se você me perguntar se os tenho como inimigos eu vou dizer que não, não os tenho. Eles é que tem coisas pra resolver com eles mesmos. No devido tempo eu vou insistir na Justiça a minha absolvição desse crime que eles dizem que eu cometi. Porque se nem o mérito foi analisado, não houve nem punição à minha a pessoa, não existem argumentos que possam me punir, não tem fato legal que leve a isso. Eu não tenho raiva de ninguém, eu acho que eles não puderam ir contra a índole deles, todos agiram de acordo com aquilo que eles realmente são, ninguém agiu contra sua consciência. Era um grande momento em que Magé talvez pudesse dar uma grande virada na questão ética desse município, e eles agiram dessa forma. Foram pra um retiro em um sítio, se sabe bem o que aconteceu lá naquela situação, e voltaram pra me cassar…

O MANGUE – Esse sítio, o senhor sabe a quem pertencia?

NESTOR VIDAL – Diziam que era do Leo da Vila, em Cachoeira de Macacu. Depois alguém disse que teve outro encontro no apartamento do Tubarão em Cabo Frio. Mas eu não me interessava nisso não, eu achava que era uma coisa quase impossível de fazer,…nunca nenhum vereador chegou até a mim pra me fazer uma pergunta direta sobre nada. E isso era o mínimo que eu esperava que eles fizessem, já que nossa relação até então sempre foi muito boa.

O MANGUE – O senhor chegou a ‘romper’, pelo menos entre aspas, com o seu partido, o PMDB. Isso a partir do momento em que o senhor afastou o presidente municipal do partido, Ernani da Silva, e o filho dele do governo. O senhor acha que de alguma forma isso contribuiu, lá na frente, pra sua cassação?

NESTOR VIDAL – O filho do Ernani, embora tivesse influência, nunca fez parte do governo. Mas o afastamento do Ernani, que era secretário de Governo, se deu no momento em que havia a necessidade de o prefeito governar o município de forma que não deixasse dúvidas sobre a gestão. Eu acho que o Ernani naquele momento estava se exacerbando em suas atividades, e tomando as decisões todas de cunho meramente pessoal, se julgando mais prefeito do que o próprio prefeito. Ele saiu na eleição pra fazer a campanha, e naquele momento o filho também saiu e perdeu aquela influência. Eu posso dizer que isso provocou um descontentamento muito grande no Ernani, que o levou a procurar a Câmara pra ver o que poderia ser feito pra me tirar. E mesmo assim eu governei por todo esse tempo. E no final foi aquele movimento político muito grande pra que me tirassem. Só que os adversários políticos que vinham estavam preocupados em quem eu iria lançar. E esqueceram que naquele golpe o Tubarão ia tomar a Prefeitura e ia ser candidato e ia ganhar os dois: Ricardo da Karol e os Cozzolino. Os Cozzolino, que a princípio viam com bons olhos o meu afastamento, em pouco tempo perceberam que eles também foram incluídos no golpe. Entendeu? De primeira juntaram todos pra me cassar, tava tudo lá na Câmara. Só que eles se esqueceram que quem ia ficar com a máquina era o Tubarão. Todo o prestígio que o Ricardo tinha, que os Cozzolino tinha, o Tubarão centralizou pra ele e deu um golpe neles todos. Me tirou e deu uma rasteira também neles. Quando eles perceberam, já era, perderam a eleição.

O MANGUE – Mas ele ficou muito bem na fita com o Nalin, que até então sempre dizia apoiar o Ricardo pra prefeito. Você acha que o Nalin blinda o Tubarão de alguma investigação em nível federal?

NESTOR VIDAL – Acho que não. Acho que o Nalin é um suplente fraco e que não tem conseguido nem fazer nada pra Magé. Ele está num cargo decorativo, é muito fraco, inexperiente, não tem o respeito dos colegas nesse sentido, é um voto que ele tem que decidir de acordo com a maioria, ele não tem voz própria. Até porque o mandato não é dele. E acho que não tem a menor chance de reeleição.

O MANGUE – E sua vida política, como está? É verdade que seu nome aparece em pesquisas prévias para deputado?

NESTOR VIDAL – Não sei de pesquisa. Eu sou muito procurado pelas pessoas de Magé, de Teresópolis e de Guapimirim, pra que eu venha candidato novamente. Tenho avaliado isso de forma séria. Muitas pessoas me conhecem como o prefeito Nestor. Mas eu sou muito mais conhecido como gestor, como administrador, como funcionário do Hospital das Clínicas de Teresópolis, como uma pessoa que construiu clínicas, que sempre investiu no município e que sempre atendeu as pessoas que me procuraram pra serem ajudadas de uma forma ou outra, independente de Política. A Política foi praticamente um acidente que aconteceu na minha vida. Eu em algum momento penso que não deveria ter entrado na Política. Seria melhor se não tivesse entrado. Mas entrei. E agora a gente tem que dar continuidade. Quando você entra, é muito difícil sair, pois se não é o ‘gostar’ da Política, é uma vontade que você tem de tirar as pessoas que você não gosta da Política. Tem sempre uma força que faz isso. Então, a gente tem muitos amigos aí, pessoas que a gente acredita. O Brasil tá precisando muito de políticas e de políticos novos. Nós precisamos mudar isso, e essa mudança vai ser muito lenta. Porque a legislação eleitoral não permite uma mudança radical. Não permite, por exemplo, que uma pessoa comum se candidate e não seja ligada a partido. A legislação não elege aquele que foi o mais votado. Na época em que fui candidato a deputado federal, eu fiz cinquenta e dois mil votos e o Jean Wyllys fez onze mil. Ele foi eleito e eu não fui. Então naquela época eu me senti injustiçado. Outra injustiça, é que naquela época não podia tomar posse quem tinha a ficha suja. Pois muito bem. Depois da eleição, o Tribunal Superior aprovou que ainda valesse. Só na próxima eleição é que não poderia valer. Teve deputado que levou quatro, com o voto dele levou mais três, todos ficha-suja, e me tiraram. Então é assim, é através da Política que se faz uma grande mudança. Eu quero ser deputado federal, sim. Eu quero retomar um projeto que acho que iniciei. Apendi muita coisa nesse trabalho de Executivo, que pode ser útil no Legislativo. E acho que o Legislativo brasileiro, em todos os níveis, precisa ser renovado. Tem que tirar essas mesmas pessoas. Espero que nessa eleição se possa fazer campanha, e não o que temos visto sempre, que é: quem tem o poder financeiro vence. Nosso projeto é o de reconstrução do nosso estado. Isso se faz pela moralização da Política.

O MANGUE – Qual o partido?

NESTOR VIDAL – Eu não estou filiado a nenhum, estou com dificuldade de identificação, tá difícil, mas espero que até janeiro eu me defina em relação a isso. Todos os partidos estão bem queimados, mas eu sei que tenho que superar isso, uma pessoa não pode ser suficiente pra que eu rejeite o partido. Só sei que PMDB não, PT não,…às vezes me entusiasmo com algum, mas tenho que analisar. Tenho que levar em conta a questão ideológica do partido e quem serão meus parceiros.

O MANGUE – Em 2011 o senhor chegou a receber um comunicado do Congresso pra tomar posse como suplente. Porque decidiu não aceitar?

NESTOR VIDAL – Sim. No mesmo dia em que eu estava tomando posse como prefeito, em 2011, recebi a convocação do Congresso pra tomar posse como deputado federal. Eu tinha que optar. E optei por ser prefeito porque eu tinha acabado de vencer a eleição. E já não tinha aquela esperança mais de ser deputado, e a gente tava vendo tudo aquilo que o município precisava. E não me arrependo, foi a melhor opção, sem dúvida. Se eu tivesse ido pro Congresso naquela época, pelo que eu conhecia, eu talvez fosse aquilo que o Nalin é hoje, tá me entendendo? Talvez eu também não pudesse fazer nada, porque eu desconhecia aquilo. Eu creio que o Nalin é uma boa pessoa. Só que precisa ter uma vivência maior de mundo político, de brigas, de pensamentos, eu acho ele um bom empresário mas é um analfabeto político. Ele não sabe o que o povo dele precisa, do que Magé precisa, e do que um deputado pode fazer. Não adianta um deputado ser eleito pra ser um defensor de um governo corrupto. Um deputado está acima disso. Não pode, seja por prestígio, por apoio político, fechar os olhos pros absurdos que acontecem na cidade. Não pode simplesmente votar emendas no Congresso pra agradar a um grupo de políticos e trair os seus eleitores como tem acontecido. Essa é uma questão muito crucial.

O MANGUE – Ele alega que foi através de uma iniciativa dele que as obras de duplicação da BR-493 voltaram a acontecer.

NESTOR VIDAL – Nada. Isso é antes de ele pensar em ser candidato. Eu briguei com isso, fui no Dnit, briguei já como prefeito, cobrei do Pezão o reinício disso. Quando o Pezão estava dando aquela entrevista lá no Palácio das Laranjeiras, dizendo que o Arco Metropolitano estava inaugurado, eu levantei a mão, não quiseram me dar a palavra, mas eu insisti, até que falei: ‘o Arco Metropolitano não está inaugurado sem o trecho de Magé, ele está capenga’. Ficou todo mundo em polvorosa quando eu disse isso, foi um tal de nego ligar pra fulano, ligar pra cicrano pra saber que história é essa de que o trecho de Magé estava parado. Aí ele falou que aquela era uma obra federal e ligou pro ministro. Foi uma briga, fui no ministro três vezes, levei deputado, deputado bate a porta mas não fala nada. Briguei muito por essa obra, depois teve problema de usina de barro, e até que resolveu, Nalin não fez absolutamente nada. Ele tá acompanhando o desenrolar da obra que a gente viu lá atrás, não fala besteira. É como ele está falando essa besteira do pedágio, não fale uma coisa dessa,…   

O MANGUE – Pois é, estão anunciando o término do contrato da CRT em 2020 e que o pedágio vai sair dali.

NESTOR VIDAL – Olha, historicamente eu sou o político que mais brigou contra esse pedágio, e sou o único do Brasil a conseguir redução integral e redução parcial, de cinquenta por cento, aos moradores. Se o pedágio sair dali, vai ser pra prejudicar Magé. Magé tem cinquenta por cento de isenção. Se pegar esse pedágio e levar lá pra divisa com Caxias como eles querem fazer, eu temo que percam esses cinquenta por cento. Então essa é uma decisão federal, é com a Justiça Federal. Às vezes escuto alguém falando que tão criando problema no recadastramento, não é pra acontecer esse tipo de coisa, qualquer coisa entra na Justiça Federal que vai conseguir. Ficam falando que investiram, investiu o que? Ninguém botou dinheiro do bolso pra fazer nada, o dinheiro é da arrecadação.

O MANGUE E o projeto ‘Cidade da Justiça’, que o atual governo apregoa como sendo dele, o que o senhor tem a dizer?

NESTOR VIDAL – A Cidade da Justiça foi uma ideia que nós levantamos junto com nosso secretário de Habitação e Urbanismo, o Gustavo Morgado, e o nosso procurador Vanderson Maçullo. A intenção era centralizar toda a representatividade do Judiciário em apenas um local, junto com a Defensoria Pública e a OAB. Isso tudo seria naquele terreno em frente à CPL, atrás do colégio. A ideia era fazer, no espaço da CPL, o prédio administrativo da Prefeitura, com todas as secretarias e o gabinete do prefeito, com acessibilidade, seria o Paço Municipal. E o Palácio Anchieta seria um museu. Nós chegamos a assinar o projeto inicial junto ao Tribunal de Justiça do Rio, os documentos iniciais são com minha assinatura e com a do Vanderson, as intenções de doação do terreno, isso foi em 2014, salvo engano. Na época não foi adiante por causa da disponibilidade financeira do Tribunal.

O MANGUE – E as obras da Barbuda, Nestor?

NESTOR VIDAL – A gente tinha retomado. Quando eu saí, elas estavam reiniciando, brigando com a empresa que tinha ganho a licitação. Hoje está abandonada. Eram oito milhões do governo federal, cujos repasses não chegaram na totalidade, e oito milhões de contrapartida do município.  

O MANGUE – Porque o senhor saiu do PMDB?

NESTOR VIDAL – Porque eu fui cassado. E a gente via nitidamente que o presidente do PMDB em Magé estava por trás disso, víamos que as questões da Justiça lá no Rio tinham um interesse muito grande do presidente estadual do partido,…, enfim, eu chegava sempre a receber recado: ‘olha, o presidente estadual, senhor Jorge Picciani, não sossega enquanto não te tirar’. E isso aconteceu, a gente não pode negar a força que seu Picciani tem. Eles falam que não, que não tem nada a ver. Mas é simples assim como estou te falando. As forças políticas de Magé, com suas ramificações no Rio e por aí a fora, me afastaram.

O MANGUE – Como o senhor recebeu a notícia da prisão dele?

NESTOR VIDAL – Eu não conheço a vida do Picciani. A gente ouve falar muita coisa, e tal,…eu estou acompanhando isso aí triste, porque o nosso estado não tem mais por onde sofrer. E cada vez que se descobre uma coisa dessa, a gente sangra. A gente tá vendo a violência, os hospitais fechados, e o Rio com destaque nacional e talvez internacional nisso tudo. E o Jorge Picciani é pai de um deputado estadual e pai de um deputado federal, é sem dúvida uma pessoa de grande força no país, então vejo isso tudo com muita tristeza. Eu fico lamentando, o cara chegar no final da vida, um idoso, com problemas com saúde, e estar tendo que passar por isso, é muito triste…

O MANGUE – O que o senhor acha que faltou ao seu governo?

NESTOR VIDAL – Eu acho que fui um tanto primário em muitas questões e um político fraco. Eu fui um bom gestor e um político fraco. Como gestor eu poderia tirar um oito e como político não mais do que quatro. Primeiro, eu errei ao não divulgar todas as nossas conquistas, nossas lutas, todas as histórias, tudo, desde o primeiro dia. Era isso que deveria ter sido feito. E por mais mídia que eu tivesse pra publicizar isso, sempre faltava coisas importantes. Muita coisa as pessoas simplesmente não tomam conhecimento. Só pelo fato de tirar aquela força política estabelecida em Magé, que continuava a repetir os erros e colocar o medo na população, onde as pessoas só recebiam remédios se apoiassem determinado candidato,…professores quando terminavam um dia de aula tinham que fazer reunião no ônibus pra assinar o ponto, os nomes, tudo isso que a gente sabe, aqueles totens que a gente tirou das ruas, era uma cidade do medo. Você batia na porta e as pessoas respondiam que iam te ajudar mas não podiam aparecer. Eu comecei a vitória aí. Uma vitória marcante foi a retirada da empresa Alfa Rodobus, era eu sair na rua e as pessoas vinham me pedir pra tirar essa empresa da cidade e assim nos fizemos. Abaixei o IPTU, tinha gente que não tinha dinheiro pra pagar o IPTU, era um absurdo, abaixei mais de mil por cento na cidade toda. Depois fiz concurso público, botei quatro mil funcionários efetivos. Reformei os colégios, inaugurei cinco escolas que as empreiteiras tinham recebido mas não tinham terminado e eu fui lá e terminei, cinco polos esportivos, peguei colégios feitos em terrenos que ainda não haviam sido pagos e teve que resolver, correndo atrás pra pagar as contas todas, pegamos o município no meio do ano,…Mas, contudo, faltou expor essas coisas, foi um erro.

O MANGUE – Porque o senhor acha que conseguia pagar em dia a todos os funcionários, e o atual prefeito não consegue?

NESTOR VIDAL – Porque a gente trabalhava de forma muito séria, essa é apenas mais uma prova disso. O dinheiro ali não era torrado de nada, não existe dinheiro pra torrar, não pode. Às vezes a pessoa fala: ‘porque você não faz isso assim’? Não faço porque existe uma coisa chamada funcionalismo, eu tenho que saber o que eu posso fazer. Nenhum prefeito vai resolver todos os problemas do município porque não tem dinheiro pra isso, mas ele tem que saber pelo menos o quanto ele pode e o quanto não pode gastar, mesmo com todo desgaste político que esse tipo de coisa acarreta, isso é ser administrador. Não tem dinheiro pra tudo, dinheiro não nasce em árvore, você tem que focar as prioridades. Quem diz que vai fazer tudo está mentindo, não vai. Temos que procurar parcerias pra fazer, tem que canalizar direito as coisas, não adianta ter funcionário trabalhando e não recebendo, não adianta cortar coisas essenciais pra fazer as supérfluas, não podia faltar merenda como esse atual governo deixou faltar, não podia faltar médico,…quando eu peguei a prefeitura, os médicos queriam um cheque antes de começar o plantão, senão não dava o plantão. Quando eu saí, um monte de médico da região queria vir trabalhar na cidade, peguei um salário de seis mil e passei pra dez mil. Nós éramos o único município que pagava isso e pagava em dia, e ainda mantínhamos aqueles PSFs todos que o governo agora fechou.

O MANGUE – Quais demais conquistas o senhor poderia enumerar?

NESTOR VIDAL – Fizemos a Rua Doutor Siqueira, Calçadão de Piabetá, tiramos os quiosques de Piabetá que eram antro de prostituição e drogadição e era a maior sujeira, fizemos a rua Caioaba, jardinamos a cidade, fizemos o Mercado Popular pros camelôs, choque de ordem, conseguimos o ônibus do projeto Crack – É Possível Vencer que hoje está aí abandonado, Operação Verão, criamos a Guarda Ambiental, a base da SAMU, criamos conselhos municipais, conseguimos com o governo federal dois Pronatec, com o governo estadual conseguimos dois CVT, programa Asfalto na Porta, entregamos o centro cirúrgico do hospital, fomos referência na Agricultura com o Centro de Pesquisa onde recebíamos visita de vários países, recebi o prêmio de prefeito empreendedor do estado, dávamos o preparo da terra pro agricultor, pagávamos o trator, pagávamos a gasolina, fizemos a limpeza de toda da região agrícola, fizemos a drenagem da microbacia toda, trouxemos a UPA sem custos pro município, fui o presidente  do consórcio de Saúde da Baixada Fluminense, fui presidente do Conleste, …

O MANGUE – Qual a história da UPA?

NESTOR VIDAL – Sérgio Cabral me chama lá no Palácio, eram onze horas da noite. Pra me dizer que estava me dando a UPA de presente. Iria dar ao município novecentos mil reais por mês pra eu administrar como eu quisesse, fazer os contratos, e os demais recursos entrariam dos próprios cofres municipais. Eu falei não, muito obrigado. ‘Ah, você tá maluco, como que pode’? Eu já conheço a história. Vai todo mundo de fora da cidade pra ser tratado lá na UPA, novecentos mil não é nada. Falei que só aceitava se a UPA fosse de administração do estado. E conseguimos que Magé fosse uma entre as duas cidades que o estado aceitou, naquele momento, arcar com todas as despesas do projeto. E foi a nossa sorte, porque se a UPA fosse de responsabilidade do município, hoje ela estaria fechada.

O MANGUE – E o tal do shopping? Porque nunca abriu?

NESTOR VIDAL – Dei todas as isenções. Ajudei em tudo que eles queriam, tirei até foto. Mas aquilo era um empreendimento empresarial. Os empresários se desentenderam entre eles. Aí tentaram vender o terreno, venderam, quando ia iniciar a obra, um novo desentendimento entre os próprios empresários. Agora, eu não sou responsável por investimento privado, dei todas as facilidades pra que eles pudessem se instalar aqui, porque eu achava que seria uma questão marcante no município, geraria muitos empregos, isso tudo.

O MANGUE – Obras da Cedae. O que o senhor diz?

NESTOR VIDAL – A Cedae, foram feitas quatro ou cinco licitações, quando eu cheguei aqui o proprietário da firma que saiu falou lá no gabinete do governador: ‘eu não volto pra Magé não, porque uma vez o parente lá da família entrou no meu escritório com arma’. Aí tivemos que fazer nova licitação pra trazer uma nova empresa, no final ele anulou porque ele tinha o contrato, e fez a passagem pra outra firma, pra continuar. Então um orçamento que era de quarenta milhões, passou pra oitenta, que passou pra noventa, que passou pra cem, e a obra tá parada porque depois que eu saí ninguém foi cobrar mais nada.

O MANGUE – Duas pessoas que participaram do seu governo estiveram envolvidas com a Justiça esse ano, vindo a ser presas: Paulo Vaz e André Vinícius. Como o senhor comentaria esses casos?

NESTOR VIDAL – O André Vinícius participou do início da minha gestão e ele foi secretário de Esportes. E só foi secretário porque ele era o vice-presidente do PMDB em Magé. Nada mais do que isso. Foi uma indicação do partido, pura e simplesmente. E veja bem, esses casos dessas prisões foram situações que eu não conheço bem, mas não são situações envolvendo o governo do Nestor. Foram ações desenvolvidas fora da gestão. Gosto do André Vinícius, é meu amigo, tive bons momentos com ele, fomos ver jogo de futebol no Maracanã algumas vezes, Paulo Vaz é uma pessoa muito boa, um leal amigo, gosto muito dele. Na época chegou ao meu conhecimento de que alguma coisa estaria acontecendo no Detran envolvendo o nome dele. Mas ele nunca trabalhou no Detran. E aí eu tenho evitado procurá-lo. Já tenho manifestado pra ele total disponibilidade pra ajudá-lo no que for, mas fica ruim eu ficar procurando, fico receoso de que as pessoas possam interpretar isso de maneira diferente e isso possa até prejudicá-lo. Conversaria com os dois se me procurassem. Porque são meus amigos e tenho profundo respeito pelos dois. Nunca houve motivo pra que eu pudesse criticar a conduta deles. Nada, nada, nada.

 

1 Comentário

  1. Muitas coisas que o ex prefeito disse sei que é verdade principalmente em relação a saúde e salários dos médicos, pois trabalhei no hospital e muitos médicos pediam vaga pelo salário que era pago, e nunca recebemos com atraso, muitas vezes éramos pagos antes da data.

DEIXE UMA RESPOSTA