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Tiago Guedes conta histórias da ‘Ocupação Balthazar’, com revelações surpreendentes: “escola avariada e alunos usados”

Funcionário da Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (SEPLAG), mas lotado na Secretaria de Estado de Educação; e ex-conselheiro tutelar em Magé, Tiago Guedes é peça fundamental para entender um pouco do que se passou na ‘Ocupação ao Balthazar’, entre abril e junho deste ano.

Em uma reportagem do site O MANGUE sobre o assunto, Tiago é citado pelo diretor do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação – SEPE, Gilberto Rodrigues, e por isso fez questão de responder. Nesta entrevista, gravada no último dia 8 na praça da Bandeira, em Magé, ele não economizou em críticas aos pais: “seus filhos só ocuparam a escola porque vocês não ocupam”, nem ao deputado estadual Renato Cozzolino (PR): “falou que ia e não foi ouvir a população”.

O MANGUE – Porque você acha que o Colégio Balthazar foi o escolhido para as ocupações em Magé?

TIAGO – O Alfredo Balthazar tem um Grêmio bem vivo, bem ativo. E a presença de professores que têm também uma participação muito grande em movimento de greves e outras manifestações, e também por ele ser ao mesmo tempo tão central e tão afastado do centro. Poderia ter sido no Alda, mas por mais que seja na mesma localidade, o público é completamente diferente. Os alunos do Alda têm uma mentalidade diferenciada. Por exemplo, movimento extra-classe: os alunos cobram o tempo todo da escola. No Balthazar, pelo contrário. Era proposto, mas não havia uma adesão dos alunos. A gente vê uma cultura diferenciada entre os alunos. Não estou desmerecendo, mas há uma vivência diferenciada. Nunca vinte e cinco alunos conseguiriam ocupar o Alda, por exemplo.

O MANGUE – Como você foi parar em meio à ocupação, e qual foi sua participação ali?

TIAGO – Eu estava de licença paternidade e fui procurado por uns pais que estavam preocupados com a situação. Eu morava próximo ao Colégio, jogava bola todo final de semana lá. Quando eu fui ver o que estava acontecendo, fui atendido por uns alunos e eles me informaram que o responsável ali era o Gilberto, do SEPE. Eles ligaram para ele, e nós conversamos pelo celular. Nós já nos conhecíamos, eu fiz a alocação dele. Eu falei, ‘Gilberto, os alunos estão reclamando de que não há diálogo entre as partes, e eu vim pra tentar articular, e se for necessário levar vocês às autoridades competentes para vocês serem ouvidos’. Ele falou que ia fazer contato, mas passaram-se duas semanas e ele não retornou. Em todo o momento eu quis intermediar para que as reivindicações deles fossem atendidas.

O MANGUE – E como ficaram os pais que estavam insatisfeitos com o movimento?

TIAGO – Me procuraram novamente, eu marquei reunião com eles em um sítio que foi cedido pelo pai de um aluno, em Piabetá. A primeira reunião deu umas cinquenta pessoas, e na última umas quatrocentas. Eles queriam invadir a escola, junto com os outros alunos, e eu acalmei os ânimos. Fui à Defensoria Pública em Magé, e de lá nos instruíram a ir à Tutela Coletiva da Educação, em Caxias. Isso foi numa sexta-feira, e no sábado iria haver uma assembleia dos ocupantes, e nós decidimos ir lá para ver o que eles tinham a nos falar. Chegando lá, eles não nos deixaram entrar.

O MANGUE – O que aconteceu?

TIAGO – Eles fecharam o portão principal da escola e abriram só o portão lateral, lá por trás, pelo estacionamento. Eu acredito que seja pra que nós não víssemos todos os danos que a escola já tinha sofrido até ali. Mas eles alegaram que era por questão de segurança. Então eu falei que ia ligar para o Batalhão e pedir a presença da Polícia, e estaria resolvida a questão da segurança. Foi quando vieram pra mim com dedo pra cima, dizendo que eu queria invadir. Se eu quisesse invadir, não estaria disposto a chamar a Polícia. Se eu quisesse invadir, estaria praticando um crime, eu não iria fazer isso. Mas os pais vieram e queriam realmente entrar na marra. Se deixasse acontecer, com certeza iria dar confusão, nesse dia tinha mais de seiscentas pessoas entre alunos e pais. Mais uma vez eu tirei todo mundo dali, levei lá pra praça, conversei em voz alta com eles, e resolvemos nos encaminhar ao Ministério Público logo na segunda-feira. De lá nos falaram que a ocupação já era prevista e não havia o que ser feito já que eles estavam em ‘livre manifestação’. O que poderia ser feito era nós também ocuparmos, exercendo igualmente nosso direito de ‘livre manifestação’. Mesmo assim decidi que nós não iríamos entrar, e sim continuar brigando. Acionei o Conselho Tutelar, porque tinha adolescentes lá dentro. Procurei também a Polícia, porque estavam me ligando muito, e falando da suspeita de comércio de drogas na escola, o consumo de cigarros e bebidas alcoolicas está mais do que provado em fotos, e isso é proibido em prédios públicos.

O MANGUE – Teve orgia?

TIAGO – Não tem como provar, mas há vizinhos de frente e comerciantes que citam que teve um show lá, eles viviam incomodando a vizinhança com barulho. O sargento, que já me conhecia do Conselho Tutelar, me falou o seguinte: ‘eu vou te ser realista, se me disserem que a escola é no norte, eu vou pro sul, porque se formos lá, o Ministério Público vai bater na gente’. Então ele tomou ciência das denúncias mas não apurou. Depois disso ficamos sabendo dos sumiços de bens da escola, como uma televisão de sessenta polegadas nova utilizada pra aula, documentos da diretoria, e foi quando foi feito registro de ocorrência citando todos os pertences da escola perdidos, tiramos foto de tudo, bebedouros que foram destruídos, livros que foram queimados, revistas que foram vendidas, tudo que fazia parte do acervo da Biblioteca, a porta da coordenação que foi arrombada, as telhas quebradas. E queremos saber também quem pagou chaveiro para fazer cópia de chaves de outras portas, porque foram reproduzidas cópias de chaves para eles entrarem nas salas.

O MANGUE – Você chegou a orientar os alunos a desistirem da ocupação?

TIAGO – Eu comecei aconselhando um aluno que vem ser meu parente, falava: olha o prejuízo que vocês estão tendo, e tal. Ele saiu, trouxe mais três pra conversar comigo, eu também os instruí e eles saíram, procuraram outra escola, e assim foi indo, eles começaram a ver que eu estava do lado deles. E como esses alunos tinham lugar de liderança, o movimento foi enfraquecendo. A maioria acabou por reconhecer que estava sendo usada. Eles mesmos admitiram isso na reunião que teve no último domingo antes de entregarem a escola. Eu achei curioso citarem meu nome como tendo criado uma manifestação para desocupar a escola, se eu em todo momento evitei a ocupação dos alunos e dos pais que estavam revoltados.

O MANGUE – Porque você acha que os professores em questão decidiram sair?

TIAGO – Eu acredito que foi por que quando eles viram o dano ao bem material, a violação ao direito à educação integral, o consumo da merenda do pré-vestibular social, quando perceberam que estavam levantando falso sobre a diretora sobre desvio de verba, então começaram a enxergar que estavam praticando um excesso. Ali foram violados tanto direito de adultos, quanto de adolescentes que tem direitos muito mais assegurados. Mas acho que o que culminou mesmo, foi essa aproximação com o período eleitoral, porque eles queriam visibilidade, mas acabou sendo uma visibilidade ruim. A comunidade ficou contra. Hoje, só o Alfredo Balthazar elege um vereador, são mil e quinhentos votos ali.

O MANGUE – Havia, ou há disputa pra tomar a direção da escola?

TIAGO – Eu não fazia parte do grupo de whatzap dos grevistas, mas em geral os professores da rede tem um respeito grande por mim, pela forma que lido com eles. Então os professores grevistas que não faziam parte da ocupação, fizeram um grupo, que iria participar quando houvesse eleição na escola. O Balthazar é um dos poucos colégios em que a eleição pra direção é feita democraticamente, e eles estariam legais em concorrer, mas o problema é que eles queriam inviabilizar a participação da diretora atual. Se a diretora fosse exonerada da função, não poderia concorrer, entendeu? Com a ausência da diretora da disputa, teoricamente ficaria mais fácil pra eles.

O MANGUE – Eles conseguiram certo desgaste da imagem da diretora, quando a acusaram de ter abandonado a escola.

TIAGO – É, essa foi mais uma mentira. Eles chegaram e praticamente a obrigaram a se retirar, junto com outros funcionários. Temos as fotos de um mural feito com os nomes das pessoas que estavam impedidas de entrar na escola. O meu nome e o dela estavam nessa lista.

O MANGUE – Houve um pedido para que você fosse exonerado?

TIAGO – Faltando duas semanas para os professores se afastarem da escola, eles estiveram na Regional com um documento pedindo para que eu fosse exonerado. A justificativa era que eles não aceitavam de forma nenhuma a minha postura de ir à escola conversar sobre a ocupação. Também levaram meu nome para o secretário estadual, mas no outro dia ele foi exonerado.

O MANGUE – Porque você acha que o secretário Antonio Neto foi exonerado?

TIAGO – Vou usar a fala do Picciani: Ele não se movimentou, ele foi um telespectador do que estava acontecendo. Um diretor geral também foi exonerado, e é curioso não haver uma fundamentação da parte do governo.

O MANGUE – Magé tem um representante na Alerj, deputado governista Renato Cozzolino, do PR, e pré-candidato à prefeitura na cidade. Ele teve alguma participação direta ou indireta, ou algum interesse pelo menos, para intervir de alguma forma?

TIAGO – Eu fico até triste de comentar esse episódio, sabendo que temos um deputado estadual e até onde me é sabido, ele não atuou. Convidamos, ligamos pra que ele participasse de uma das nossas reuniões com os pais que estavam querendo entender esse movimento de escola fechada, de ocupação,…fomos atendidos pela assessoria dele, nos disseram que ele iria, mas não apareceu, não deu resposta. Não foi nem ouvir a população e aos alunos ocupantes. De todo os alunos não estavam errados, eles estavam praticando um excesso. Assim como a Secretaria de Educação também não se movimentou em dar respostas aos pais. Com exceção da Coordenadoria, que foi bem solícita durante todo o tempo.

O MANGUE – Você acha que o governo vai cumprir tudo que foi prometido?

TIAGO – Visto a crise que vai vir pós-olimpíadas, acho que não. Não que não queiram, mas acho difícil conseguir. Veja só, eles queriam mudança de currículo. Mas isso é o MEC quem propõe, e existe uma votação dentro dos municípios pra mudar. Ou seja, nem o MEC pode alterar, não é assim que acontece. Eu vi essa reivindicação sem um conhecimento prévio. O currículo é mínimo pois não pode ser menos do que aquilo, mas se o professor quiser passar o infinito, e conseguir, ele pode.

O MANGUE – E as pautas específicas dos professores?

TIAGO – A reivindicação que eu achei muito plausível dos professores grevistas, seria o pagamento voltar para o segundo dia útil do mês. Isso é muito pertinente, pois quando o estado alegou que teria que mudar para o décimo dia útil, isso poderia acontecer desde que os oito dias úteis fossem pagos. Ou seja, hoje todos os servidores estaduais que tiveram sua folha alterada para o décimo dia útil, trabalharão de graça para o estado por oito dias úteis, pois o estado não pagou. Só que, aumento salarial hoje, todo mundo sabe que é inviável. Não existe de onde tirar esse recurso. Talvez sim, se fizer contenção de despesa, toda uma estratégia que vai demorar no mínimo três anos para acontecer, aí se conseguiria esse aumento. Quanto a reivindicação do enquadramento: acho que é válido, teria que publicar e conseguiram. A partir de uma data eles vão começar a receber inclusive o atrasado. Muito bom. Mas outras coisas, como o professor ser integral da escola, seria lindo. Mas tem que ter um planejamento que leva no mínimo dois anos, é algo progressivo, e já estamos caminhando pra isso.

O MANGUE – E as pautas específicas dos alunos do Balthazar?

TIAGO – Banheiro LGBT. Esse é um assunto novo na sociedade brasileira. Não dá pra reivindicar algo que a sociedade não está pronta pra lidar. Tanto a sociedade no geral, quanto quem solicita, não sabe lidar especificamente com essa questão. É algo inviável e ilógico. O vestiário já existe, mas estava bem avariado, é uma obra muito grande, a cargo da EMOP. E o campo sintético é inviável, porque já tem uma quadra imensa daquela, coberta, tem um campinho de grama com um espaço bom,…

O MANGUE – Mesmo com o governo em crise, foram liberados até quinze mil reais pra cada uma das unidades ocupadas, para reformas. O que você acha disso?

TIAGO – A avaria que a escola sofreu passa muito mais de quinze mil reais. Olha, eu não posso descredibilizar a matéria dada pelo jornal Enfoque, onde tudo aparecia muito lindo. Mas na segunda-feira após a ocupação o bebedouro já tava todo quebrado, a grade da cozinha para a própria segurança do aluno foi arrancada, uma geladeira foi queimada, a TV que sumiu, o material da biblioteca e da cozinha que foram perdidos,…então, só aí já dá uns doze mil reais.

O MANGUE – Você acompanhou as realidades de outras escolas? Foram parecidas?

TIAGO – Em nenhuma outra escola da nossa Regional houve um cenário igual a esse. O Colégio Dom Pedro, em Petrópolis, foi ocupado, mas a ocupação era paralela às aulas. Então reivindicaram, conquistaram, estão de parabéns porque é assim que tem que ser feito, de uma forma moral e ética. Não puseram a sociedade e os alunos em prejuízo. Não denegriram a imagem de ninguém. O Colégio Euclides da Cunha, em Petrópolis, foi ocupado também, não sei se já houve respostas quanto às reivindicações, mas também não houve avarias. Aqui foi a forma rude, a postura dos docentes insuflando os alunos, sem se colocar a frente diretamente. Eles iam lá, falavam coisas aos alunos, e eram subjetivos nas ações. Só quando eu estive lá é que vieram botando dedo no meu rosto. Tentaram me envolver com os pais, colocaram o número de telefone do Polo e o meu nome, dizendo: “se precisar de transferência, é só procurar o Tiago do Polo, declaração é Tiago do Polo, diploma é Tiago do Polo”. Só que eu não emito nada disso. Tenho na minha agenda o número de ‘n’ pais e pessoas que me procuraram, por conta de o meu nome estar na frente da escola. Achei isso desnecessário por parte deles.

O MANGUE – Vocês percebiam a influência política partidária, ou de outras entidades, vindo de fora?

TIAGO – Tirando a Aerj, que era citada com frequência, não víamos pronunciamento de nenhuma sigla, em nenhum momento. Talvez a ligação que se faça, e que eu também não identifiquei, é pelo fato de alguns professores serem filiados a instituições, mas isso também faz parte da vida social das pessoas. Então, mesmo que haja uma filiação e possibilidade de participação nas eleições municipais, eu não identifiquei esse tipo de trabalho dentro da escola. Só se foi indiretamente. Às vezes um politico não se pronuncia, mas quem é visto é lembrado, isso faz parte da artimanha de um bom político. Estar indo lá, estar com os alunos, e tal…mas é como falei no início, se houve essa intenção, posteriormente ela foi contrária, porque ao invés de a sociedade os abraçar, os repeliu.

O MANGUE – O Gilberto alega que armaram um print de uma mensagem que não era dele, mudaram as palavras dele e colocaram como se fosse ele falando. Você acredita?

TIAGO – Eu estive com ele por mais de uma vez. E a fala dele em todo tempo foi favorável à ocupação, e eu também não era contrário à ocupação. Mas eu não acredito que houve montagem de prints, não acredito que foi nada forjado. Acho que houve a fala sim, principalmente quando eles citam que a professora Priscila e o professor Patrick, como sendo os candidatos a diretores da escola, como que fossem representados por eles.

O MANGUE – A candidata não seria a professora Daniela?

TIAGO – Não. Num primeiro momento, sim. Posteriormente, não mais.

O MANGUE – Como se manteve o Grêmio Estudantil nesse período? É verdade que alguns ocupantes estavam insatisfeitos pela permanência de dez anos da Daniela nas articulações com o Grêmio?

TIAGO – É, ela sempre teve boa articulação com o Grêmio sim, até o momento em que arrumou uns problemas lá com o aluno Felipe Santana, ligado ao movimento estudantil. Esse aluno tem parece que vinte e sete anos e não consegue se formar de jeito nenhum. Todo ano ele se matricula e quando chega à época de se formar ele abandona. Eu até sugeri à coordenação pedagógica pra ver se esse aluno não está tendo alguma dificuldade. Quando estive pessoalmente com ele, ele me disse que esse bloqueio foi por conta de um momento de desavença entre a professora Daniela e ele, e isso o desestabilizou psicologicamente, ele não consegue mais estudar. Foi sugerido que ele trocasse de escola, mas ele disse que gosta muito do Balthazar. Eu só queria deixar claro, é que eu particularmente não tive nenhuma desavença com nenhum professor ou aluno. Não consigo identificar um erro em você orientar as pessoas a procurar as autoridades pra resolver as questões. Mas, se alguém identifica um erro nisso, quero pedir desculpas.

O MANGUE – O que foi feito na Tutela Coletiva da Educação?

TIAGO – No mesmo dia em que a ocupação aconteceu, a direção da escola procurou a Polícia Civil e o Conselho Tutelar, isso está documentado. A Regional também comunicou à sede, e a Secretaria teria que comunicar ao Ministério Público, como foi feito em outras escolas. Isso aqui não aconteceu. No dia em que fomos à Tutela, passaram pra gente um protocolo, e uma semana após a promotora foi à escola. E ela chegou acompanhada das pessoas que trabalham com ela, e ficou três horas fora da escola aguardando para que abrissem o portão pra ela entrar. A partir daí a coisa começou a tomar outro rumo, a juíza no Rio começou a se manifestar também. Nós iríamos procurar a mídia, mas houve um movimento tanto por parte dos superiores da Secretaria de Educação, que não queriam mídia de forma alguma, quanto por parte dos alunos. Então não foi feito.

O MANGUE – O que os alunos reivindicavam, afinal de contas?

TIAGO – Antes de eles me terem como uma pessoa má, o que eles me passavam era o seguinte: “queríamos que a Regional e o secretário nos ouvisse”. E eu disse que poderia promover esses encontros, e se necessário, levá-los à Comissão de Educação na Alerj. Nesse primeiro momento eles foram extremamente educados comigo e receptivos. Quando eu voltei, uma semana depois, eles já se fecharam. Eles ficaram de resolver, mas não interagiram mais. Após isso, não me passaram mais nenhuma pauta. Teve um dia em que eu cheguei lá e eles tinham posto mais de duzentas cadeiras do lado de fora, ocupando toda a calçada e uma faixa da rua. Estavam com os instrumentos da Banda fazendo batucada. A partir dali já foram bem ríspidos e rígidos, falando que não iam me ouvir porque ‘eu sou governo’. E eu falei, se eu sou governo, os professores que estão com vocês também são, porque são funcionários como eu. Na verdade eu estava ali como cidadão ativo, como usuário da escola, como ex-conselheiro tutelar, nem minha carteira funcional eu levava.

O MANGUE – Você acredita que eles queriam realmente melhoras na Educação? Há quem acredite que o movimento foi bom pois só assim alguns alunos passaram a se interessar mais pelos estudos…

TIAGO – Porque eu acredito que eles não queriam melhorar a Educação: porque eles não contestaram a greve, ou seja, estavam tendo perda de aulas. Eu notei eles bem confusos, não tinham objetivos. Eu tive que explicar por alto o que vem a ser o ‘currículo mínimo’ que eles tanto criticam. Eles não reivindicavam que teriam que ter aula de música, por exemplo. Reivindicaram o porquê de os instrumentos da banda estarem parados. Não contestaram coisas que fossem ligadas estritamente ao que tange à Educação. Quer ver uma coisa, a escola não tem professor de todas as disciplinas, mas isso eles não contestavam. Queriam reivindicar o uso do celular durante as aulas, o que é proibido por uma lei estadual. Querem entrar na escola de bermuda, de chinelo, de boné. Queriam flexibilizar o horário das aulas, o que é inviável pois tem um turno logo depois. A questão é: o currículo do aluno mostra quem é o aluno. Quem estava ali era cinquenta por cento repetentes ou já tinha abandonado a escola. Que bom se começaram a se interessar agora, mas não dá pra reclamar que o ensino é fraco e não passar de série.

O MANGUE – E sobre o movimento ‘Desocupa Balthazar’, o que você poderia falar?

TIAGO – Na realidade nunca houve esse grupo ‘Desocupa Balthazar’. Isso foram os alunos da própria ocupação que criaram esse grupo nas redes sociais, para alegar ameaças. Foi o que eu sempre falei lá. Eles viviam me acusando de fazer parte desse grupo, e eu dizia: ‘Não existe Desocupa, Desocupa é crime, a ocupação pode acontecer, e qualquer outra ocupação pode acontecer feita por qualquer pessoa, inclusive por mim’. Há fotos em que eles dizem ser de bombas caseiras que foram jogadas de fora pra dentro pra intimidar a ocupação. Só que a farsa é muito grande. O muro da escola tem mais de três metros e na frente ainda tem as grades. O muro lateral é do vizinho. Do outro lado é a Faetec, não teria como ninguém jogar nada por ali. E pela frente, pra lançar um artefato daquele e pra cair onde caiu, teria que ser um artefato muito grande e muito pesado e muita força pra lançar. É algo completamente inconsistente. Eles mesmos é que estavam fazendo e alegavam que eram pessoas externas à ocupação.

O MANGUE – Como você analisa isso tudo do ponto de vista de um ex-conselheiro tutelar? Você já tinha se deparado com um problema como esse acontecendo em nossa cidade?

TIAGO – Olha, foi o que eu disse aos pais que foram me procurar: se eu ainda fosse conselheiro, eles iriam tomar puxão de orelha. Eu falei pra eles: seus filhos só ocuparam a escola porque vocês não ocupam. Se os pais fossem presentes, e se os alunos não fossem pra escola somente sentar e ouvir as aulas, isso não aconteceria. Se nós ocuparmos o lugar que é nosso, ninguém ocupa. O décimo terceiro do professor está parcelado porque em dezembro quando isso foi anunciado, ninguém tinha que ir pra Copacabana assistir a queima de quinze milhões de reais em quinze minutos. Fora isso, eu nunca vi, e a promotora também falou que nunca viu nada igual como aqui em Magé. Na Defensoria, falaram que não conseguiam entender como o Ministério Público e a Vara responsável pela Educação, demoraram tanto pra cobrar dos gestores, do governo, uma posição. Talvez não houve uma resposta rápida, por receio das próximas eleições. Eu penso assim. Mas o fato é que nenhuma liderança apareceu, nenhum político, nenhum vereador tentou ajudar, nenhum pré-candidato, nem o prefeito que estava à época, nem o posterior, nem o deputado estadual, nem o federal suplente que teve mandatos periódicos, nada, nada. Eu fiquei até com medo, pois da última vez em que me meti em uma dessas, recebi um processo.

O MANGUE – Como foi?

TIAGO – Nós recebemos uma denúncia de falsos médicos atuando no hospital de Piabetá e de Fragoso, em maio do ano passado. Averiguamos, fizemos fotos, a Polícia nos acompanhou, e iríamos conduzir uma médica à delegacia, porque ela se recusou a se identificar. Foi quando o sargento falou que se a levássemos, e fosse provado que ela é médica, isso iria deixar muitos pacientes esperando. E eu falei que se ela não fosse médica, os pacientes poderiam morrer, porque era emergência. E ficamos nessa, ela ficou de comparecer ao Conselho, e não apareceu. Intimamos outra vez e ela não foi, mandamos para o Ministério Público e pelo que eu sei, até hoje não houve resposta. E eu e os outros conselheiros ainda seguramos processos da Prefeitura, que dizia que estávamos tumultuando o serviço.

 

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